terça-feira, 30 de dezembro de 2008

As noites

"Que pergunta devo fazer a esta noite?
Ela está tão linda que...
Bem... Acho que posso perguntar qualquer coisa."

[Num 23 de Dezembro de 2008 qualquer...]


Depois de tudo? Acho que ela sentia um nó na garganta toda vez que pensava nele...
Também tenho quase certeza de que sentia, na maioria das vezes, vontade de chorar. Lembro que, depois de certo tempo, ela prometeu a si mesma que nunca mais o faria. Algo relacionado com ele não merecer mais suas lágrimas. Uma dessas ideias idiotas que as mulheres utilizam para se convencerem que são fortes. O fato é que desde então ela realmente não mais chorou, acredito...

E tinha também os momentos que ela tentava entender... Inúteis, claro. Até tentei convencê-la a não perder tempo com isso, mas o fato é que ela nunca me ouvia... Algo relacionado a instintos e impulsividade... Babaquices humanas... Quem sou eu, pra questionar essa necessidade tola de sentir.

Mas confesso... Vinham-me arroubos homicidas toda vez que ela tentava entender. Dizia pra ela: “Agora? Do que adianta?! Você já fez a porra da burrada! Lembra que tentei te avisar e você dizia: ‘Desculpa, mas agora não é pra te ouvir, eu preciso seguir o outro, afinal é ele mesmo que sofrerá as consequências. ’” ... Como se fosse isso mesmo, ela sabia que no fim das contas o outro se escondia assustado e ficávamos nós dois, eu e ela, todas as noites, tentando entender. Sim, porque nesses momentos a fudida recorria a mim, claro! E sempre iniciava com aquela maldita frase inútil: “É... você estava certo...”

Às vezes eu realmente sentia pena dela. O olhar triste e perdido, um grito contido que sempre esbarrava nos lábios cerrados de medo... Medo de mostrar sua dor, se os outros realmente vissem o que ela sentia, tudo ficaria assustadoramente real... Acho que isso explica o nó na garganta que falei anteriormente.

E era sempre assim... Era como um treino, uma aprendizagem. Foi o que pensei. Tentei fazê-la pensar da mesma forma, me parecia a única explicação cabível. Tudo bem que com ela acontecia com muita frequência, quase sempre da mesma maneira e dessa vez foi a mais difícil... Até eu acreditei dessa vez...
E era dessa forma que ela argumentava e eu dizia: “Claro! Você sempre lenta em tudo, quando os outros vinham voltando, você ainda nem havia entendido que tinha que ir...” Touché!


Ela dizia: “É... isso é verdade...”
E riamos muito.

De repente ela parava... Aquele olhar... Parecia a pessoa mais triste do mundo, mas o que eu sei sobre tristeza...

Ela dizia: “Não... por favor, não quero mais ter esperanças. Cansei de acreditar. E convenhamos, não era pra você, logo você, me dá esperança. Você está tão cansado quanto eu.” Era verdade... Estávamos cansados, muito cansados.

Mas aquela tristeza no olhar dela sinceramente me incomodava. Geralmente quando esse olhar surgia nas nossas conversas eu lembrava daquela poetisa que ela gostava, recitava algo pra ela... Eu pessoalmente achava tudo aquilo uma besteira, nunca fui capaz de entender um poema. Mas ela... Ah... Ela sorria... Eu nunca entendi a beleza daquele sorriso... Era como se as duas se entendessem, era um riso cúmplice, era quase uma experiência mística...
O que raios estou dizendo?! Era só uma garota extremamente passional ouvindo poesia e eis que questiono: há tiros mais passionais que os dos versos e rimas?

E ela me respondia com aquele sorriso lindo: “Você realmente nunca irá entender, mas obrigada.”

E dormia.

[♪♪ ouvindo Lady Day ♪♪]

Hilda Hilst [sempre]

Que canto há de cantar o que perdura?
A sombra, o sonho, o labirinto, o caos
A vertigem de ser, a asa, o grito.
Que mitos, meu amor, entre os lençóis:
O que tu pensas gozo é tão finito
E o que pensas amor é muito mais.
Como cobrir-te de pássaros e plumas
E ao mesmo tempo te dizer adeus
Porque imperfeito és carne e perecível
E o que eu desejo é luz e imaterial.
Que canto há de cantar o indefinível?
O toque sem tocar, o olhar sem ver
A alma, amor, entrelaçada dos indescritíveis.
Como te amar, sem nunca merecer?

(Da Noite - 1992)

sábado, 27 de dezembro de 2008

É Proibido

É proibido chorar sem aprender,
Levantar-se um dia sem saber o que fazer
Ter medo de suas lembranças.
É proibido não rir dos problemas
Não lutar pelo que se quer,
Abandonar tudo por medo,
Não transformar sonhos em realidade.
É proibido não demonstrar amor
Fazer com que alguém pague por tuas dúvidas e mau-humor.
É proibido deixar os amigos
Não tentar compreender o que viveram juntos
Chamá-los somente quando necessita deles.
É proibido não ser você mesmo diante das pessoas,
Fingir que elas não te importam,
Ser gentil só para que se lembrem de você,
Esquecer aqueles que gostam de você.
É proibido não fazer as coisas por si mesmo,
Não crer em Deus e fazer seu destino,
Ter medo da vida e de seus compromissos,
Não viver cada dia como se fosse um último suspiro.
É proibido sentir saudades de alguém sem se alegrar,
Esquecer seus olhos, seu sorriso, só porque seus caminhos se
desencontraram,
Esquecer seu passado e pagá-lo com seu presente.
É proibido não tentar compreender as pessoas,
Pensar que as vidas deles valem mais que a sua,
Não saber que cada um tem seu caminho e sua sorte.
É proibido não criar sua história,
Deixar de dar graças a Deus por sua vida,
Não ter um momento para quem necessita de você,
Não compreender que o que a vida te dá, também te tira.
É proibido não buscar a felicidade,
Não viver sua vida com uma atitude positiva,
Não pensar que podemos ser melhores,
Não sentir que sem você este mundo não seria igual.

[Pablo Neruda]

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

Piano de calda

"Eu nunca fui uma moça bem-comportada. Pudera, nunca tive vocação pra alegria tímida, pra paixão sem orgasmos múltiplos ou pro amor mal resolvido sem soluços. Eu quero da vida o que ela tem de cru e de belo. Não estou aqui pra que gostem de mim. Estou aqui pra aprender a gostar de cada detalhe que tenho. E pra seduzir somente o que me acrescenta. Adoro a poesia e gosto de descascá-la até a fratura exposta da palavra. A palavra é meu inferno e minha paz. Sou dramática, intensa, transitória e tenho uma alegria em mim que me deixa exausta. Eu sei sorrir com os olhos e gargalhar com o corpo todo. Sei chorar toda encolhida abraçando as pernas. Por isso, não me venha com meios-termos, com mais ou menos ou qualquer coisa. Venha a mim com corpo, alma, vísceras, tripas e falta de ar... Eu acredito é em suspiros, mãos massageando o peito ofegante de saudades intermináveis, em alegrias explosivas, em olhares faiscantes, em sorrisos com os olhos, em abraços que trazem pra vida da gente. Acredito em coisas sinceramente compartilhadas. Em gente que fala tocando no outro, de alguma forma, no toque mesmo, na voz, ou no conteúdo. Eu acredito em profundidades. E tenho medo de altura, mas não evito meus abismos. São eles que me dão a dimensão do que sou."
[Maria de Queiroz]

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Closer - Perto Demais, 2004

Dan - O que faz quando não ama mais?
Alice - "Eu não te amo mais, adeus!"
Dan - E se você ainda ama?!
Alice - Não vai.
Dan - Nunca abandonou ninguém que ainda amava?
Alice - Não!
~*~
Alice – Vou contar a verdade. E você pode me odiar.
Alice – Larry e eu transamos a noite toda. Eu adorei. Eu gozei.
Alice - ... Eu prefiro você. Agora saia.
Dan – Eu já sabia. Ele me contou.
Alice – Você sabia?
Dan – Eu queria ouvir de você.
Alice – Por quê?
Dan – Ele podia ter mentido. Você não.
Alice – Eu não teria te contado. Você nunca me perdoaria.
Dan – Perdoaria. Eu perdoei!
Alice – Por que ele contou?
Dan – Porque ele é um babaca!
Alice – Como ele pôde?
Dan – Para que isso acontecesse.
Alice – Mas por que me testar?
Dan – Por que sou um idiota!
Alice – Sim.
Alice - Eu teria te amado... pra sempre. Agora saia.
Dan – Não faz isso. Fala comigo.
Alice – Já falei. Fora!
Dan – Você entendeu mal. Eu não queria...
Alice – Queria sim.
Dan – Eu te amo!
Alice – Onde?
Dan – O quê?
Alice – Me mostra! Cadê esse amor?
Alice – Eu não o vejo. Eu não posso tocar nele. Eu não sinto. Eu te ouço. Escuto umas palavras... Mas não posso fazer nada com suas palavras vazias. Diga o que disser. É tarde.
Dan – Não faz isso!
Alice – Está feito.


~*~

Esses não são os diálogos que considero os mais fodas, mas em closer há tantos... Tantas doses macisas e diretas de verdades e desencontros. Esse filme é sem dúvidas, meu filme de cabeçeira. Andei esquecendo dele e acabei flutuando em alguns momentos. Mas se há no cinema hoje uma reprodução bem próxima da realidade dos relacionamentos modernos, essa reprodução é closer.

E tenho dito!

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

A Genialidade da Multidão

Há bastante deslealdade, ódio, violência,
absurdo no ser humano comum
para suprir qualquer exército em qualquer dia.
E o melhor no assassinato
são aqueles que pregam contra ele.
E o melhor no ódio
são aqueles que pregam amor e o melhor na guerra -finalmente-
são aqueles que pregam a paz
aqueles que pregam deus precisam de deus
aqueles que pregam paz não têm paz.
Aqueles que pregam amor não têm amor
cuidado com os pregadores
cuidado com os sabedores.
Cuidado com aqueles que estão sempre lendo livros
cuidado com aqueles que detestam pobreza
ou que são orgulhosos dela
cuidado com aqueles que elogiam fácil
porque eles precisam de elogios de volta
cuidado com aqueles que censuram fácil:
eles têm medo daquilo que não conhecem
cuidado com aqueles que procuram constantes multidões;
eles não são nada sozinhos
cuidado com o homem comum
com a mulher comum
cuidado com o amor deles
o amor deles é comum,
procura o comum
mas há genialidade
em seu ódio
há bastante genialidade
para matar você, para matar qualquer um.
Sem esperar solidão
sem entender solidão
eles tentarão destruir qualquer coisa
que seja diferente deles mesmos
incapazes de criar arte
eles não irão compreender arte
eles vão considerar sua falha como criadores
apenas como uma falha do mundo
incapazes de amar completamente
eles vão acreditar que seu amor
é incompleto
e eles vão odiar você
e seu ódio será perfeito
como um diamante brilhante
como uma faca
como uma montanha
como um tigre
como cicuta
sua mais fina arte

[Charles Bukowski]

sábado, 13 de dezembro de 2008

Escuta, Zé Ninguém!

És o "homem médio", o "homem comum". Repara bem no significado destas palavras: "médio" e "comum".

Não fujas. Tem ânimo e contempla-te. "Que direito tem este tipo de dizer-me o que quer que seja?" Leio esta pergunta nos teus olhos-amedrontados. Ouço-a na sua impertinência, Zé Ninguém. Tens medo de olhar para ti próprio, tens medo da crítica, tal como tens medo do poder que te prometem e que não saberias usar. Nem te atreves a pensar que poderias ser diferente: livre em vez de deprimido, direto em vez de cauteloso, amando às claras e não mais como um ladrão na noite. Tu mesmo te desprezas, Zé Ninguém, Dizes: "Quem sou eu para ter opinião própria, para decidir da minha própria vida e ter o mundo por meu?" E tens razão: Quem és tu para reclamar direitos sobre a tua vida? Deixa-me dizer-te.
Diferes dos grandes homens que verdadeiramente o são apenas num ponto: todo o grande homem foi outrora um Zé Ninguém que desenvolveu apenas uma outra qualidade: a de reconhecer as áreas em que havia limitações e estreiteza no seu modo de pensar e agir. Através de qualquer tarefa que o apaixonasse, aprendeu a sentir cada vez melhor aquilo em que a sua pequenez e mediocridade ameaçavam a sua felicidade. O grande homem é, pois, aquele que reconhece quando e em que é pequeno. O homem pequeno é aquele que não reconhece a sua pequenez e teme reconhecê-la; que procura mascarar a sua tacanhez e estreiteza de vistas com ilusões de força e grandeza, força e grandeza alheias. Que se orgulha dos seus grandes generais, mas não de si próprio. Que admira as idéias que não teve, mas nunca as que teve. Que acredita mais

arraigadamente nas coisas que menos entende, e que não acredita no que quer que lhe pareça fácil de assimilar.


Wilhelm Reich
~*~
Agora são 01:43 da madrugada e não consigo parar de ler esse livro...
Por hora é só isso.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

UMA REVOLTA

Quando o amor é grande demais torna-se inútil: já não é mais aplicável, e nem a pessoa amada tem a capacidade de receber tanto. Fico perplexa como uma criança ao notar que mesmo no amor tem-se que ter bom senso e senso de medida. Ah, a vida dos sentimentos é extremamente burguesa.

[Clarice Lispector.]
~*~

A cada dia viver me esmaga com mais força

"...se você tivesse telefonado hoje eu ia dizer tanta, mas tanta coisa. Talvez mesmo conseguisse dizer tudo aquilo que escondo desde o começo, um pouco por timidez, por vergonha, por falta de oportunidade, mas principalmente porque todos me dizem que sou demais precipitado, que coloco em palavras todo o meu processo mental (processo mental: é exatamente assim que eles dizem, e eu acho engraçado) e que isso assusta as pessoas, e que é preciso disfarçar, jogar, esconder, mentir. Eu não achei que ia conseguir dizer, quero dizer, dizer tudo aquilo que escondo desde a primeira vez que vi você, não me lembro quando, não me lembro onde. Hoje havia calma, entende? Eu acho que as coisas que ficam fora da gente, essas coisas como o tempo e o lugar, essas coisas influem muito no que a gente vai dizer, entende? Pois por fora, hoje, havia chuva e um pouco de frio: essa chuva e esse frio parecem que empurram a gente mais pra dentro da gente mesmo, então as pessoas ficam mais lentas, mais verdadeiras, mais bonitas. Hoje eu estava assim: mais lento, mais verdadeiro, mais bonito até. Hoje eu diria qualquer coisa se você telefonasse. Por dentro também eu estava preparado para dizer, um pouco porque eu não agüento mais ficar esperando toda hora você telefonar ou aparecer, e quando você telefona ou aparece com aquelas maçãs eu preciso me cuidar para não assustar você e quando você me pergunta como estou, mordo devagar uma das maçãs que você me traz e cuido meus olhos para não me traírem e não te assustarem e não ficarem querendo entrar demais dentro dos teus olhos, então eu cuido devagar tudo o que digo e todo movimento, porque eu quero que você venha outras vezes (...) A cada dia viver me esmaga com mais força."

[Caio Fernando Abreu, Carta para Além do Muro.]
~*~
Às vezes, ela só quer esquecer tudo... Ou simplesmente não sentir o que lembra... Ou talvez implorar... Mas nada acontece.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

Cambaio

~*~
Eu quero moça que me deixe perdido
Procuro moça que me deixe pasmado
Essa moça zoando na minha idéia
Eu quero moça que me deixe zarolho
Procuro moça que me deixe cambaio
Me fervendo na veia

Desejo a moça prestes
A transformar-se em flor
A se tornar um luxo
Pro seu novo amor
Moça que vira bicho
Que é de fechar bordel
Que ateia fogo às vestes
Na lua-de-mel

Eu quero moça que me deixe maluco
Moça disposta a me deixar no bagaço
Essa moça zanzando na minha raia
Eu quero moça que me chame na chincha
Com sua flecha que crave um buraco
Na cabeça e não saia

Vejo fulana a festejar na revista
Vejo beltrana a bordejar no pedaço
Divinais garotas
Belas donzelas no salão de beleza
altas gazelas nos jardins do palácio
Eu sou mais as putas
~*~
Judith and the Head of Holofernes, Gustav Klimt
~*~
Por algum motivo que não sei explicar, paro o dia com um meio sorriso quando essa música toca no rádio, geralmente estou sentada dentro do ônibus. Sempre tive vontade de juntar ela em algum lugar com esse quadro do Klimt (talvez uma livre-associação-sem-sentido...). O por quê? O olhar da Judith de Klimt diz tudo...
Ah...Os olhares das mulheres de Klimt... Poder & Perigo... Como uma "aspirante" a Lilith que sou, não posso deixar de ficar fascinada com eles.
Ainda lamento ser tão Teresa (ler ' A insustentável leveza do ser'), mas do jeito que andam as coisas ainda me torno uma Sabina. O bom é ser uma pouco das duas.
Acredito, ao ver essa tela, que Klimt viu mais que uma história bíblica... Talvez eu também esteja vendo mais do que ele quis passar, mas não sou especialista em obras de arte.
Aqui, me reservo ao direito de escrever a merda que eu quiser.
P.s.: Raios... Que mistura obliqua é essa... Preciso ser mais linear.

domingo, 7 de dezembro de 2008

Passional

“Sou o que se chama de pessoa impulsiva. Como descrever? Acho que assim: vem-me uma idéia ou um sentimento e eu, em vez de refletir sobre o que me veio, ajo quase que imediatamente. O resultado tem sido meio a meio: às vezes acontece que agi sob uma intuição dessas que não falham, às vezes erro completamente, o que prova que não se tratava de intuição, mas de simples infantilidade.Trata-se de saber se devo prosseguir nos meus impulsos. E até que ponto posso controlá-los. [...] Deverei continuar a acertar e a errar, aceitando os resultados resignadamente? Ou devo lutar e tornar-me uma pessoa mais adulta? E também tenho medo de tornar-me adulta demais: eu perderia um dos prazeres do que é um jogo infantil, do que tantas vezes é uma alegria pura. Vou pensar no assunto. E certamente o resultado ainda virá sob a forma de um impulso. Não sou madura bastante ainda. Ou nunca serei.”

[Clarice Lispector]

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Os sobreviventes

"[...] Ando angustiada demais, meu amigo, palavrinha antiga essa, angústia, duas décadas de convívio cotidiano, mas ando, ando, tenho uma coisa apertada aqui no meu peito, um sufoco, uma sede, um peso, não me venha com essas histórias de atraiçoamos-todos-os-nossos-ideais, nunca tive porra de ideal nenhum, só queria era salvar a minha, veja só que coisa mais individualista elitista, capitalista, só queria ser feliz, burra, gorda, alienada e completamente feliz, cara."

[C. F. Abreu, in Morangos Mofados]

Puta que pariu! [precisava soltar essa...]
Depois de procurar sofregamente esse livro em toda parte, o encontro hoje numa biblioteca municipal empoeirada que não vou a exatamente um ano e o primeiro trecho sublinhado que encontro é este acima. O conto todo é o que os intelectuais definiriam como FODA! Cada dia amo mais esse cara.
Oh! Minha santa Hilda Hilst daí-me o DOM!

P.s.: Parabéns pra mim, uma fodida a vinte primaveras.

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Eles...

"Eu quis tanto ser a tua paz, quis tanto que você fosse o meu encontro. Quis tanto dar, tanto receber. Quis precisar, sem exigências. E sem solicitações, aceitar o que me era dado. Sem ir além, compreende? Não queria pedir mais do que você tinha, assim como eu não daria mais do que dispunha, por limitação humana. Mas o que tinha, era seu. "
[C.F. Abreu]
***

"[...] No entanto, o que terminei sendo, e tão cedo? Terminei sendo uma pessoa que procura o que profundamente se sente e usa a palavra que o exprima.É pouco, é muito pouco.”

[Clarice Lispector]

sábado, 22 de novembro de 2008

Roy...


Engole esse choro!

Das Vantagens de Ser Bobo

"Ser bobo às vezes oferece um mundo de saída porque os espertos só se lembram de sair por meio da esperteza, e o bobo tem originalidade, espontaneamente lhe vem a idéia. O bobo tem oportunidade de ver coisas que os espertos não vêem. Os espertos estão sempre tão atentos às espertezas alheias que se descontraem diante dos bobos, e estes os vêem como simples pessoas humanas. (...) Bobo não reclama. Em compensação como exclama! Os bobos, com todas as suas palhaçadas, devem estar no céu. Se Cristo tivesse sido esperto não teria morrido na cruz. O bobo é sempre tão simpático que há espertos que se fazem passar por bobos. Ser bobo é uma criatividade e, como toda criação, é difícil. Por isso é que os espertos não conseguem passar por bobos. Os espertos ganham dos outros. Em compensação os bobos ganham a vida. (...) É quase impossível evitar excesso de amor que o bobo provoca. É que só o bobo é capaz de excesso de amor. E só o amor faz o bobo."

[Clarice Lispector]

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Café e maçãs

Café e maçãs na tarde de Junho.
Num morno recanto civilizado
meus sentidos abarcam uma situação ligeiramente abstrada.
O mundo se tornou hospitaleiro,
como uma trégua no meio da história.
As maçãs emitem um resplendor amarelo,
o café oferece sua fumaça íntima.
Para meu fracasso de indivíduo contemporâneo
tudo isso parece o suficiente,
o frio interno das maçãs,
o calor instável do café,
dois motivos da natureza que fogem do meu controle.
Assim que estou com o traseiro esparramado
num aposento apropriado para minha classe social.
Zelando pelas coisas suaves
fecham-se as portas para o tumulto geral.
Porém às vezes estoura uma bomba no andar de baixo
e a polícia corre para saber quem é quem neste mundo.

[Joaquín O Gianuzzi]

Tradução de Renato Rezende

E não posso acrescentar mais nada a isso...

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Poesia Argentina

Num desses dias em que eu deveria estar fazendo algo que eu não estava fazendo...
Dei de cara com um livro, que só posso classificar como lindo. Uma antologia bilíngüe de poesia argentina e brasileira contemporânea, a qual estou tentanto consumir em doses homeopáticas [como se isto fosse possivel...]. Um dos mestres que me encantou encontrei na página 143. Chama-se Joaquín O Gianuzzi e fiquei totalmente anestesiada com este poema:

Cabeça Final

Todas as ideologias deram-lhe pauladas.
Não conheceu a alegria do possivel.
A história do mundo a humilhou,
e a vergonha de seu país,
a calvície, os dentes perdidos,
uma sombra escavada sob os olhos,
o fracasso pessoal de sua linguagem.
O operário que respirou em seu interior
ávido por oxigênio e um universo constante
deixou cair o martelo. Foi a razão
quem cegou suas próprias janelas. Mas também não encontrou no delírio conclusão alguma.
Por isso, talvez não tenha sido tão rude
essa maneira de negar o mundo ao desperdir-se.
Foi assim:
repousando sobre o último travesseiro
virou para o lado da parede
o pouco que restava do seu rosto.

tradução de Renato Rezende


Mesmo com a visão desiludida de que a vida parece não ter finalidade, de que pouco restará... Mesmo assim, esse poema tem em si algo de extremamente tocante, em que muitos com certeza se encontrarão um dia... Ou já encontraram-se...
Ah! O livro [se algum ser desavisado passar por este post] é PUENTES/PONTES, poesía argentina y brasileña contemporánea / poesia argentina e brasileira contemporânea, com seleções e ensaios de Jorge Monteleone e Heloisa Buarque de Holanda. Vale a pena a leitura ;)

Gravata

"Então, admitiu o medo. E admitindo o medo permitia-se uma grande liberdade: Sim, podia fazer qualquer coisa, o próximo gesto teria o medo dentro dele e portanto seria um gesto inseguro, não precisava temer, pois antes de fazê-lo já se sabia temendo-o, já se sabia perdendo-se dentro dele - Finalmente podia partir para qualquer coisa, porque de qualquer maneira estaria perdido dentro dela."

[C. F. Abreu, in 'O ovo apunhalado']

terça-feira, 11 de novembro de 2008

Alcoólicas

É crua a vida. Alça de tripa e metal
Nela despenco: pedra mórula ferida.
É CRUA e DURA a vida. Como um naco de víbora.
Como-a no livor da língua
Tinta, lavo-te os atebraços, Vida, lavo-me
No estreito-pouco
Do meu corpo, lavo as vigas dos ossos, minha vida
Tua unha plúmbea, meu casaco rosso
e peramulamos de coturno pela rua
Rubras, góticas, altas de corpo e copos.
A vida é crua. Faminta como o bico dos corvos.
E pode ser tão generosa e mítica: arroio, lágrima
Olho d'água, bebida. A vida é liquida.
[Hilda Hilst]

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Vertigem

“O que é vertigem? Medo de cair? Mas porque temos vertigem num mirante cercado por uma balaustra sólida? Vertigem não é o medo de cair, é outra coisa. É a voz do vazio debaixo de nós, que nos atrai e nos envolve, é o desejo da queda do qual nos defendemos aterrorizados."

[Milan Kundera, "Insustentável Leveza do Ser"]

***
Às vezes...

Mesmo sabendo que é necessário,

Mesmo sabendo que preciso,

Mesmo sabendo que um dia vou entender,

E sabendo que vai passar...

Mesmo assim...

Fico assustada com como a vida dói.

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Mutável

"Multipliquei-me, para me sentir, Para me sentir, precisei sentir tudo, Transbordei, não fiz senão extravasar-me, Despi-me, entreguei-me, E há em cada canto da minha alma um altar a um deus diferente."

[Álvaro de Campos]



Às vezes ela é uma “cidadezinha qualquer”. Singela, com seres simples que se sentam em suas varandas e dão bom dia aos passantes...

E respira...

Porém, sem aviso prévio a vida acontece, e de repente ela é metrópole. Concreto e nuvens negras. Barulho fora dos homens, silêncios entre paredes sólidas de medo...

Não consegue respirar...

Queria ser sempre aquela cidadezinha, com suas vaquinhas malhadas e seu céu desafiadoramente azul, suas flores de perfumes sinceros... Mística de sonhos e luz e orgasmos...
Mas algo acontece, e migra (in) voluntariamente para sua condição de metrópole. É lançada no caos da vertiginosa vida urbana, gera a vida civilizada, amorfa e contida. Com suas máquinas de carne, que deixam correr sangue nas veias e nas calçadas... E tudo está manchado de alguma coisa: sangue, esperma, lodo, tempo, abandono, logro, egoísmo, ódio, indiferença... AMOR... Sim, na metrópole que ela se torna Ele pode manchar, sujar, ou até mesmo matar algo... Ela é o lugar onde a vida acontece enquanto as cabeças estão na ilusão moderna do amanhã...

E Fenece...

Permanece metrópole até lembrar-se de que a cidadezinha existe em algum lugar dentro dela. É quando volta, cheia de esperanças, a ser aqueles perfumes que soltam-se do canto dos pássaros.

Torna-se fênix...

No fundo ela sabe que não pode ser apenas, única e exclusivamente, uma delas...
Sempre estará migrando. E a cada nova transformação algo será perdido ou ganho...
Um amor, um sorriso, palavras... Sonhos.
O fato é que sempre será uma vulnerável transmutação... Não consegue ser diferente... Nem quer.

sábado, 1 de novembro de 2008

Por que quando vejo esta imagem tenho a nítida sensação de que fotografaram minha alma?

Hoje

"Ando meio fatigado de procuras inúteis e sedes afetivas insaciáveis."
[Caio F. Abreu]


Hoje, se não lhe tivessem tirado a chance... Ela o faria rir.

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Eles

"O que eles deixaram foram três postulados: importante é a luz, mesmo quando consome; a cinza é mais digna que a máteria intacta e a salvação pertence apenas àqueles que aceitarem a loucura escorrendo em suas veias." (pag. 65)

"Pertencia àquela espécie de gente que mergulha nas coisas às vezes sem saber por que, não sei se na esperança de decifrá-las ou se apenas pelo prazer de mergulhar. Essas são as escolhidas - as que vão ao fundo ainda que fique por lá." (pág. 66)

"Os que trazem a marca, mesmo que não saibam dela, esses olham as coisas com olhar de sangue." (pág. 67)

"Porque você não pode voltar atrás no que vê. Você pode se recusar a ver, o tempo que quiser: até o fim de sua MALDITA vida, você pode recusar, sem necessidade de rever seus mitos ou movimentar-se de seu lugarzinho confortável. Mas a partir do momento em que você vê, mesmo involutariamente, você está perdido: as coisas não voltarão a ser mais as mesmas e você próprio já não será o mesmo. O que vem depois, não se sabe. Há aquele olhar de que lhe falei, e aquelas outras coisas, mas nada sei de você por dentro, depois de ver." (pág. 69)

[Caio Fernando Abreu, in 'o ovo apunhalado']

Alguém me explica como é que ele conseguiu? Não há mais nenhuma opção, além de quase passar da parada em que se vai descer do ônibus, ao ler esse livro...
Dizem: "Diga-me o que sublinhas e te direi quem és." Pessoalmente? Prefiro este ao bíblico.

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Do contraditório como terapêutica de libertação

Recentemente, entre a poeira de algumas campanhas políticas, tomou de novo relevo aquele grosseiro hábito de polemista que consiste em levar a mal a uma criatura que ela mude de partido, uma ou mais vezes, ou que se contradiga, frequentemente. A gente inferior que usa opiniões continua a empregar esse argumento como se ele fosse depreciativo. Talvez não seja tarde para estabelecer, sobre tão delicado assunto do trato intelectual, a verdadeira atitude científica. Se há facto estranho e inexplicável é que uma criatura de inteligência e sensibilidade se mantenha sempre sentado sobre a mesma opinião, sempre coerente consigo próprio. A contínua transformação de tudo dá-se também no nosso corpo, e dá-se no nosso cérebro consequentemente. Como então, senão por doença, cair e reincidir na anormalidade de querer pensar hoje a mesma coisa que se pensou ontem, quando não só o cérebro de hoje já não é o de ontem, mas nem sequer o dia de hoje é o de ontem? Ser coerente é uma doença, um atavismo, talvez; data de antepassados animais em cujo estádio de evolução tal desgraça seria natural. A coerência, a convicção, a certeza são além disso, demonstrações evidentes — quantas vezes escusadas — de falta de educação. É uma falta de cortesia com os outros ser sempre o mesmo à vista deles; é maçá-los, apoquentá-los com a nossa falta de variedade. Uma criatura de nervos modernos, de inteligência sem cortinas, de sensibilidade acordada, tem a obrigação cerebral de mudar de opinião e de certeza várias vezes no mesmo dia. Deve ter, não crenças religiosas, opiniões políticas, predileções literárias, mas sensações religiosas, impressões políticas, impulsos de admiração literária.
Certos estados de alma da luz, certas atitudes da paisagem têm, sobretudo quando excessivos, o direito de exigir a quem está diante deles determinadas opiniões políticas, religiosas e artísticas, aqueles que eles insinuem, e que variarão, como é de entender, consoante esse exterior varie. O homem disciplinado e culto faz da sua sensibilidade e da sua inteligência espelhos do ambiente transitório: é republicano de manhã, e monárquico ao crepúsculo; ateu sob um sol descoberto, é católico ultramontano a certas horas de sombra e de silêncio; e não podendo admitir senão Mallarmé àqueles momentos do anoitecer citadino em que desabrocham as luzes, ele deve sentir todo o simbolismo uma invenção de louco quando, ante uma solidão de mar, ele não souber de mais do que da "Odisseia". Convicções profundas, só as têm as criaturas superficiais. Os que não reparam para as coisas quase que as vêem apenas para não esbarrar com elas, esses são sempre da mesma opinião, são os íntegros e os coerentes. A política e a religião gastam d'essa lenha, e é por isso que ardem tão mal ante a Verdade e a Vida. Quando é que despertaremos para a justa noção de que política, religião e vida social são apenas graus inferiores e plebeus da estética — a estética dos que ainda a não podem ter? Só quando uma humanidade livre dos preconceitos de sinceridade e coerência tiver acostumado as suas sensações a viverem independentemente, se poderá conseguir qualquer coisa de beleza, elegância e serenidade na vida.

[Fernando Pessoa, in 'Idéias Políticas' ]
Para os que (como eu) permitem-se mudar de opinião, na busca sincera de serem honestos consigo mesmos. Não que concorde com tudo que foi dito... Mas convenhamos que é um texto político feito por um poeta... A beleza é gritante.

Pode parecer demasiado utópico...
Mas preciso acreditar, ao menos, em mim mesma.

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

Nos poços


Primeiro você cai num poço. Mas não é ruim cair num poço assim de repente? No começo é. Mas você logo começa a curtir as pedras do poço. O limo do poço. A umidade do poço. A água do poço. A terra do poço. O cheiro do poço. O poço do poço. Mas não é ruim a gente ir entrando nos poços dos poços sem fim? A gente não senti medo? A gente senti um pouco de medo mas não dói. A gente não morre? A gente morre um pouco a cada poço. E não dói? Morrer não dói. Morrer é entrar noutra. E depois: no fundo do poço do poço do poço do poço você vai descobrir quê.
[Caio Fernando Abreu, in O ovo apunhalado]

Hoje eu ia chegar aqui e "vomitar" (para ninguém...) alguma coisa que eu mesma tivesse escrito... Mas ao ir tentar (tentar...) estudar para uma prova na biblioteca da universidade... E nunca fico na área certa pra estudo, vou pra um canto entre as estantes de livros, bem no fundo da biblioteca, sempre na área de literatura, e sento no chão, ou seja... Deparei-me com "O ovo apunhalado" e na página 19, encontrei-me "nos poços"...
Que delícia foi esse encontro... Estou tentando não devorar (impulsiva como sou...) esse "ovo apunhalado"... Pois, tenho algumas refeições indigestas antes dessa sobremesa...

Ah! A prova?
Deus abençoe quem inventou a 2ª chamada... =)

terça-feira, 28 de outubro de 2008

No ônibus

"Sabes
vesti-te de palavras
com o perfume da poesia
só para te despir na leitura"

[José António Gonçalves ]

O viu e tudo nele era tão harmonicamente posicionado...
Ela tinha que olhá-lo nos olhos...


Ele desviou.

Ela não mais o encarou, mas sabia que ele percebera que havia sido notado. O sentiu procurando seu olhar novamente, era o suficiente pra ela que acendeu para si um meio sorriso.

Era a sua mensagem...

E ela pôde perceber que um dia lindo havia nascido. Que tudo ia dar certo, e mesmo que as coisas estivessem difíceis, ao menos isso a fazia sentir que a vida seguia um caminho...

Algo estava acontecendo e isto era importante...

Olha que loucura... Viu tudo isso no rosto dele, ele era tão lindo que ela sentiu vontade de agradecer-lhe por isso...

Acredite, ela sentiu brotar dentro de si uma gratidão profundamente poética... Quase se dirigiu ao moço que a havia acordado para dizer com um sorriso, um caloroso obrigada...

Mas há convenções...

Lá havia um aviso invisível que dizia: “Proibido sorrir”.

Até ali havia um sol que ela não havia sentido...
Um céu cintilantemente azul que ela não havia notado...
E muitas coisas a serem feitas...
Pessoas insistindo em seguir em frente, mesmo que de um jeito "humano, demasiado humano".


Elas seguiam...

Todos os dias, ao acordarem, praticavam o pequeno, subversivo e significativo gesto de continuar.

E continuamos...

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Meu vício agora

"Fiz um acordo de coexistência pacífica com o tempo: Nem ele me persegue, nem eu fujo dele, um dia a gente se encontra."
[Mário Lago]
***
Não vou mais falar de amor
De dor, de coração, de ilusão
Não vou mais falar de sol
Do mar, da rua, da lua ou da solidão

Meu vício agora é a madrugada
Um anjo, um tigre e um gavião
Que desenho acordada
Contra o fundo azul da televisão

Meu vício agora...
É o passar do tempo
Meu vício agora...
Movimento, é o vento, é voar...

Não vou mais verter
Lágrimas baratas sem nenhum porque
Não vou mais vender
Melôs manjadas de Karaokê

E mesmo assim fica interessante
Não ser o avesso do que eu era antes
De agora em diante ficarei assim...
Desedificante

George Israel/Paula Toller

***



Muito dificil... Mas seria tão bom...



domingo, 26 de outubro de 2008

Marcas

"As pessoas feridas são perigosas...
Elas sabem que podem sobreviver."
Di

Como o sangue, corremos dentro dos corpos no momento em que abismos os puxam e devoram. Atravessamos cada ramo das árvores interiores que crescem do peito e se estendem pelos braços, pelas pernas, pelos olhares. As raízes agarram-se ao coração e nós cobrimos cada dedo fino dessas raízes que se fecham e apertam e esmagam essa pedra de fogo. Como sangue, somos lágrimas. Como sangue, existimos dentro dos gestos. As palavras são, tantas vezes, feitas daquilo que significamos. E somos o vento, os caminhos do vento sobre os rostos. O vento dentro da escuridão como o único objecto que pode ser tocado. Debaixo da pele, envolvemos as memórias, as ideias, as esperanças e o desencanto.Depois das nuvens no último lugar do mundo, ficamos onde não chegam as vozes. Os nossos olhares estendem-se aos cantos mais esquecidos das casas, ao fundo do mar, aos lugares que só os cegos vêem, às rochas cobertas por folhas na floresta, às ruas de todas as cidades. Os nossos olhares tocam os lugares iluminados e tocam os lugares negros. Ninguém e nada nos pode fugir. À noite, estendemos os braços para entregar uma bala, ou um frasco de veneno, ou uma lâmina, ou uma corda. À noite tocamos em rostos. E sorrimos. O som de um tiro. O fogo dentro de um frasco de veneno. Sangue a secar na linha de uma lâmina. Uma corda esticada na noite. Morte fogo sangue morte. E sorrimos. Longe da lua, depois das nuvens, o nosso rosto é uma ferida aberta no céu da noite. O mundo diante de nós. Podemos tocar-te agora. Com o movimento mais pequeno de um dedo, podemos destruir aquilo que te parece mais seguro. Estás diante de nós. Se quisermos, podemos tocar-te. Se quisermos, podemos destruir-te.Dentro e sobre os homens, somos o medo. São as nossas mãos que determinam a fúria das águas, que fazem marchar exércitos, que plantam cardos debaixo da pele. Sabemos que nos conheces. Em algum instante da tua vida, enchemos-te e envolvemos-te com a imagem da nossa voz, a imagem do nosso significado, o silêncio e as palavras. Num instante que escolhermos podemos voltar a encher-te e a cobrir-te. Sabemos que conheces o frio e a solidão à margem das estradas quando a noite é tão escura, quando a lua morreu, quando existe um deserto de negro à margem das estradas. Olha para dentro de ti e encontrar-nos-ás. Olha para o céu, depois das nuvens, e encontrar-nos-ás. Nunca poderás esconder-te de nós. Esse é o preço por caminhares sobre a terra onde, um dia, entrarás para sempre. As últimas pás de terra a cobrirem-te serão as nossas pálpebras a fecharem-se. Só então poderás descansar.Somos o medo. Conhecemos tantas histórias. Todos os amantes que olham pela janela e imaginam que perderam para sempre. Todos os homens que, num quarto de hospital, abraçam os filhos. Todos os afogados que, pela última vez, levantam a cabeça fora de água. Todos os homens que escondem segredos. E tu? Escondes algum segredo? Não precisas responder. Conhecemos a tua história. Vimos-te mesmo quando não nos vias. Vemos-te agora. Escondes algum segredo? Responde quando te olhares ao espelho. O teu rosto duplicado: o teu rosto e o teu rosto. Quando vires os teus olhos a verem-te, quando não souberes se tu és tu ou se o teu reflexo no espelho és tu, quando não conseguires distinguir-te de ti, olha para o fundo dessa pessoa que és e imagina o que aconteceria se todos soubesse aquilo que só tu sabes sobre ti. Nesse momento, estaremos contigo. Envolver-te-emos e estarás sozinho.Depois das nuvens, sobre os homens, debaixo da pele, dentro dos homens, esperamos por ti. Estamos a ver-te agora, enquanto lês. Estaremos a ver-te quando deixares de pensar nestas palavras. Dentro e sobre o teu rosto, sabemos os teus segredos. Sabemos aquilo que escondes até de ti próprio. Não nos podes fugir. Na palma das nossas mãos seguramos o teu coração. Se quisermos, podemos aperta-lo agora. Se quisermos, podemos esmagá-lo. Não podes fazer nada para nos impedir. O nosso olhar está parado sobre cada um dos teus gestos e sobre cada uma das tuas palavras. Diz uma palavra agora. Faz um gesto. Sorrimos perante as tuas palavras, como sorrimos perante o teu silêncio. Ninguém poderá proteger-te. Ninguém pode proteger-te agora. És ainda menos do que imaginas. Nós assistimos a mil gerações de homens como tu. Para nosso prazer, deixámo-los caminhar pelas linhas das nossas mãos. Para nosso prazer, tirámos-lhe tudo. Guiámos gerações inteiras de homens por túneis que construímos em direcção a nada. E, quando chegaram ao vazio, sorrimos. És igual a todos eles. Esperamos por ti dentro e sobre o teu rosto. Continua o teu caminho. Segue por essa linha da nossa mão. Nós sabemos onde termina esse túnel por onde caminhas. Continua a caminhar. Nós esperamos por ti. Sorrimos ao ver-te. Depois das nuvens, somos o medo. Debaixo da pele, somo o medo.

[José Luís Peixoto]

***

Apesar de... continuamos...