sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Poesia Argentina

Num desses dias em que eu deveria estar fazendo algo que eu não estava fazendo...
Dei de cara com um livro, que só posso classificar como lindo. Uma antologia bilíngüe de poesia argentina e brasileira contemporânea, a qual estou tentanto consumir em doses homeopáticas [como se isto fosse possivel...]. Um dos mestres que me encantou encontrei na página 143. Chama-se Joaquín O Gianuzzi e fiquei totalmente anestesiada com este poema:

Cabeça Final

Todas as ideologias deram-lhe pauladas.
Não conheceu a alegria do possivel.
A história do mundo a humilhou,
e a vergonha de seu país,
a calvície, os dentes perdidos,
uma sombra escavada sob os olhos,
o fracasso pessoal de sua linguagem.
O operário que respirou em seu interior
ávido por oxigênio e um universo constante
deixou cair o martelo. Foi a razão
quem cegou suas próprias janelas. Mas também não encontrou no delírio conclusão alguma.
Por isso, talvez não tenha sido tão rude
essa maneira de negar o mundo ao desperdir-se.
Foi assim:
repousando sobre o último travesseiro
virou para o lado da parede
o pouco que restava do seu rosto.

tradução de Renato Rezende


Mesmo com a visão desiludida de que a vida parece não ter finalidade, de que pouco restará... Mesmo assim, esse poema tem em si algo de extremamente tocante, em que muitos com certeza se encontrarão um dia... Ou já encontraram-se...
Ah! O livro [se algum ser desavisado passar por este post] é PUENTES/PONTES, poesía argentina y brasileña contemporánea / poesia argentina e brasileira contemporânea, com seleções e ensaios de Jorge Monteleone e Heloisa Buarque de Holanda. Vale a pena a leitura ;)

Um comentário:

Anônimo disse...

É o tipo de coisa que se lê e fica paralisado...
E nos faz pensar.
Nessa tal existência, e sermos talvez:
EXISTENCIALISTAS!