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quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Mas que puxa, caio!

Meu nome é Caio F.
Moro no segundo andar,
mas nunca encontrei você na escada.

Preciso de alguém, e é tão urgente o que digo. Perdoem excessivas, obscenas carências, pieguices, subjetivismos, mas preciso tanto e tanto. Perdoem a bandeira desfraldada, mas é assim que as coisas são-estão dentro-fora de mim: secas. Tão só nesta hora tardia - eu, patético detrito pós-moderno com resquícios de Werther e farrapos de versos de Jim Morrison, Abaporu heavy-metal -, só sei falar dessas ausências que ressecam as palmas das mãos de carícias não dadas.
Preciso de alguém que tenha ouvidos para ouvir, porque são tantas histórias a contar. Que tenha boca para falar, porque são tantas histórias para ouvir, meu amor. E um grande silêncio desnecessário de palavras. Para ficar ao lado, cúmplice, dividindo o astral, o ritmo, o ver, a libido, a percepção da terra, do ar, do fogo, da água, nesta saudável vontade insana de viver. Preciso de alguém que eu possa estender a mão devagar sobre a mesa para tocar a mão quente do outro lado e sentir uma resposta como - eu estou aqui, eu te toco também. Sou o bicho humano que habita a concha ao lado da concha que você habita, e da qual te salvo, meu amor, apenas porque te estendo a minha mão.
No meio da fome, do comício, da crise, no meio do vírus, da noite e do deserto - preciso de alguém para dividir comigo esta sede. Para olhar seus olhos que não adivinho castanhos nem verdes nem azuis e dizer assim: que longa e áspera sede, meu amor. Que vontade, que vontade enorme de dizer outra vez meu amor, depois de tanto tempo e tanto medo. Que vontade escapista e burra de encontrar noutro olhar que não o meu próprio - tão cansado, tão causado - qualquer coisa vasta e abstrata quanto, digamos assim, um Caminho. Esse, simples mas proibido agora: o de tocar no outro. Querer um futuro só porque você estará lá, meu amor. O caminho de encontrar num outro humano o mais humilde de nós. Então direi da boca luminosa de ilusão: te amo tanto. E te beijarei fundo molhado, em puro engano de instantes enganosos transitórios - que importa?
(Mas finjo de adulto, digo coisas falsamente sábias, faço caras sérias, responsáveis. Engano, mistifico. Disfarço esta sede de ti, meu amor que nunca veio - viria? virá? - e minto não, já não preciso.) Preciso sim, preciso tanto. Alguém que aceite tanto meus sonos demorados quanto minhas insônias insuportáveis. Tanto meu ciclo ascético Francisco de Assis quanto meu ciclo etílico bukovskiano. Que me desperte com um beijo, abra a janela para o sol ou a penumbra. Tanto faz, e sem dizer nada me diga o tempo inteiro alguma coisa como eu sou o outro ser conjunto ao teu, mas não sou tu, e quero adoçar tua vida. Preciso do teu beijo de mel na minha boca de areia seca, preciso da tua mão de seda no couro da minha mão crispada de solidão. Preciso dessa emoção que os antigos chamavam de amor, quando sexo não era morte e as pessoas não tinham medo disso que fazia a gente dissolver o próprio ego no ego do outro e misturar coxas e espíritos no fundo do outro-você, outro-espelho, outro-igual-sedento-de-não-solidão, bicho-carente, tigre e lótus.
Preciso de você que eu tanto amo e nunca encontrei. Para continuar vivendo, preciso da parte de mim que não está em mim, mas guardada em você que eu não conheço. Tenho urgência de ti, meu amor. Para me salvar da lama movediça de mim mesmo. Para me tocar, para me tocar e no toque me salvar. Preciso ter certeza que inventar nosso encontro sempre foi pura intuição, não mera loucura. Ah, imenso amor desconhecido. Para não morrer de sede, preciso de você agora, antes destas palavras todas caírem no abismo dos jornais não lidos ou jogados sem piedade no lixo. Do sonho, do engano, da possível treva e também da luz, do jogo, do embuste: preciso de você para dizer eu te amo outra e outra vez. Como se fosse possível, como se fosse verdade, como se fosse ontem e amanhã.
 
Caio F. Abreu. Crônica publicada no jornal Estadão, Caderno 2 de 29 de julho de 1987

quarta-feira, 20 de julho de 2011

E preciso disso agora


Preciso de um tempo, preciso me reencontrar em novos caminhos e preciso disso agora.





C
a
i
o

F.

domingo, 14 de novembro de 2010

Avulsas

nádia diz (15:38):
"ainda fico me perguntando, porque eu sou sempre trocada tão facilmente".
eu também
nádia diz (15:40):
vc nunca ser suficiente
(@palomamush) diz (15:41):
eu nunca sou
(@palomamush) diz (15:42):
sabe quando você sente que está sobrando?
eu só sobro.
nunca encho.
nádia diz (15:43):
será que isso muda um dia, mush?
vc quer acreditar que sim, mas poxa, mas de 20 anos da mesma coisa
nao dá
mais*
(@palomamush) diz (15:44):
não sei nads, estou só vivendo e tentando me acostumar com isso
nádia diz (15:46):
ninguém mais luta, cara.
ninguém mais quer acreditar.
vc acaba desistindo também.


_

(@palomamush) diz (12:50):
não quero amar outra pessoa. eu quero que isso murche, seque, e morra. quero ficar dura, como um granito.
não quero, nunca mais, precisar passar por uma dor tão grande como essa.
isso tudo está fazendo o maior mal da minha vida, e eu não sei lidar.

_


endureci um pouco, desacreditei muito das coisas, sobretudo das pessoas e suas boas intenções. dar um rolé em cima disso não vai ser nada fácil. e as marcas ficarão - tatuagens.

(Caio F. Abreu)

_

Nádia diz (21:51):
voltei
finalmente descobri que tenho um talento.
(@palomamush) diz (21:51):
qual?
Nádia diz (21:52):
nasci pra ter o coração partido.
(@palomamush) diz (21:53):
queria dizer qualquer coisa bonita, que as coisas podem até melhorar
mas nós duas não acreditamos mais nisso...
mas eu te acompanho nesse desgosto...
só vai restar nós duas no final.
(@palomamush) diz (21:55):
a gente cola os caquinhos
vamo ?
Nádia diz (21:56):
sabe o que dá certo nesse mundo, mush?
o que é conveniente.
só isso dá certo.

quinta-feira, 27 de maio de 2010

ta, caio...


Ter um amor seria importante, mas se você não conseguiu, se a vida não deu, ou ele partiu - sem o menor pudor, invente um.
~

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Confesso que viverei

Tenho vivido bem pouco, reconheço.
Então vou...
Deve haver uma vida pra mim em algum canto.
Deve haver.


Vive, dizes, no presente,
Vive só no presente.

Mas eu não quero o presente, quero a realidade;
Quero as cousas que existem, não o tempo que as mede.

[...]

[CAEIRO, Alberto]

sexta-feira, 19 de março de 2010

Leis I

Lei de Bilac:

"Só quem ama pode ter ouvido capaz de ouvir e de entender estrelas"



Nunca ouvi e, sendo assim, acho que nunca ouvirei as estrelas.

quinta-feira, 11 de março de 2010

Don't Try


1. Buk me disse que na vida tudo é ilusão de verdade.

2. O que parece não é.

3. Zerei os contadores, sendo assim, nunca amei. Era patético pensar naquela vez.

4. Percebi pela primeira vez que qualquer coisa POSSUÍDA POR QUALQUER PESSOA tinha uma tranca.

5. Ele continua:
- Não é preciso uma multidão de homens e mulheres pra asfixiar e mutilar a vida de qualquer indivíduo, basta um. e geralmente é só um.

6. Falou mais, mas só lembro do que eu precisava menos.

7. Antes era mais fácil ficar próxima de pessoas distantes, agora nem isso.

8. Scotch e água, lembro disso.

9. Não sou esnobe; simplesmente não estou interessado no que a maioria das pessoas tem pra dizer, ou o que elas desejam fazer - principalmente com o meu tempo.

10. Hoje, só dez. Maldita dor de cabeça.


domingo, 22 de novembro de 2009

A sempre companheira, melancolia.

você tem tanta vontade de chorar, tanta vontade de ir embora. para que o protejam, para que sintam falta. tanta vontade de viajar para bem longe, romper todos os laços, sem deixar endereço. um dia mandará um cartão-postal de algum lugar improvável. Bali, Madagascar, Sumatra. escreverá: penso em você. deve ser bonito, mesmo melancólico, alguém que se foi pensar em você num lugar improvável como esse. você se comove com o que não acontece, você sente frio e medo. parado atrás da vidraça, olhando a chuva que, aos poucos começa a passar.


Caio Fernando Abreu

não tenho culpa se ele sempre entende.

sábado, 7 de novembro de 2009

e de novo e de novo...

Eu achei que quando passasse o tempo, eu achei que quando eu finalmente te visse tão livre, tão forte e tão indiferente, eu achei que quando eu sentisse o fim, eu achei que passaria. Não passa nunca, mas quase passa todos os dias.

caio.

sábado, 10 de outubro de 2009

num sábado pudico...


"Ah! Essas pessoas sensatas!”, exclamei sorrindo. “Paixão! Embriaguez! Loucura! Vocês, pessoas decentes, ficam aí impassíveis, censurando os bêbados, abominando os insensatos, seguem o seu caminho como um padre e agradecem a Deus como um fariseu, por não tê-los feito iguais a nenhum deles. Por mais de uma vez me embriaguei e as minhas paixões estiveram à beira da loucura, e não me arrependo disso; pois, de uma certa forma, consegui compreender por que todos os homens extraordinários, que fizeram alguma coisa grande, alguma coisa inacreditável, sempre foram chamados de bêbados ou loucos. Mas também na vida comum é insuportável acabar de executar uma ação espontânea, nobre e inesperada, e logo ouvir alguém dizendo: ‘Este homem está bêbado, está doido!’. Vocês, sóbrios, não têm vergonha? Vocês, eruditos, não têm vergonha?"

Os sofrimentos do jovem Werther, Goethe.

domingo, 4 de outubro de 2009

ele, de novo.

não te tocar, não pedir um abraço, não pedir ajuda, não dizer que estou ferido, que quase morri, não dizer nada, fechar os olhos, ouvir o barulho do mar, fingindo dormir, que tudo esta bem, os hematomas no plexo solar, o coração rasgado, tudo bem.

Caio F. Abreu

sábado, 1 de agosto de 2009

Desistiu


Okay,
Tudo bem, é realmente muito difícil ler pensamentos...
Ela só queria livrar-se do medo.
Havia um jeito,
mas entendo... é realmente muito difícil ler pensamentos.

Assim:

Olha, eu sei que o barco tá furado e sei que você também sabe, mas queria te dizer pra não parar de remar, porque te ver remando me dá vontade de não querer parar também.

[Caio F. Abreu]

sábado, 25 de julho de 2009

pois é


A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E, porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E, porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E, porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E, à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.
A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá (...) A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele. Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se de faca e baioneta, para poupar o peito. A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que, gasta de tanto acostumar, se perde de si mesma.

Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.

[ Marina Colasanti ]

terça-feira, 26 de maio de 2009

Dói-me

Hoje dói-me pensar,
dói-me a mão com que escrevo,
dói-me a palavra que ontem disse,
dói-me o mundo.
Há dias que são como espaços preparados
para que tudo doa.

[Roberto Juarroz]

segunda-feira, 25 de maio de 2009

Memórias de Emília, de Monteiro Lobato

“A vida, Senhor Visconde, é um pisca-pisca. A gente nasce, isto é, começa a piscar. Quem pára de piscar, chegou ao fim, morreu. Piscar é abrir e fechar os olhos - viver é isso. É um dorme-e-acorda, dorme-e-acorda, até que dorme e não acorda mais. A vida das gentes neste mundo, senhor sabugo, é isso. Um rosário de piscadas. Cada pisco é um dia. Pisca e mama. Pisca e anda. Pisca e brinca. Pisca e estuda. Pisca e ama. Pisca e cria filhos. Pisca e geme os reumatismos. Por fim, pisca pela última vez e morre.- E depois que morre - perguntou o Visconde.- Depois que morre, vira hipótese. É ou não é?”

segunda-feira, 18 de maio de 2009

Nenhum Olhar

"Penso: talvez o sofrimento seja lançado às multidões em punhados e talvez o grosso caia em cima de uns e pouco ou nada em cima de outros. Ainda que o peso do meu peito seja custoso, qual é o peso de um abismo? Ainda que me sinta um cego a crescer sem olhos para um precipício, tenho que me lavantar desta cama. Tenho de levantar estes braços que não são meus, tenho de levantar estas pernas que não são minhas, mas de um rochedo, e ir tratar das ovelhas. A minha cadela. O campo. O sobreiro grande. Que sombra estará agora debaixo do sobreiro grande? Ainda que caminhe pela noite ao meio da tarde, ainda que no pico do sol seja o mais negro da noite e dentro da noite seja noite também, por tudo ser noite aos meus olhos, tenho de me levantar desta cama. Mesmo que seja para sofrer sofrer, tenho de ir de encontro àquilo que serei, por ter sido isto e não poder fugir, não poder fugir de me tornar alguma coisa."
[José Luís Peixoto]

sábado, 16 de maio de 2009

Hoje

"Amanheci em cólera. Não, não, o mundo não me agrada. A maioria das pessoas estão mortas e não sabem, ou estão vivas com charlatanismo. E o amor, em vez de dar, exige. E quem gosta de nós quer que sejamos alguma coisa de que eles precisam. Mentir da remorso. E não mentir é um dom que o mundo não merece. E nem ao menos posso fazer o que uma menina semiparalítica fez em vingança: quebrar um jarro. Não sou semiparalítica. Embora alguma coisa em mim diga que somos todos semiparalíticos. E morre-se, sem ao menos uma explicação. E o pior, vive-se sem ao menos uma explicação.
[…]
E se tento falar, Sai um rugido de tristeza. Então não é cólera apenas? Não, é tristeza
também"
[C.L]
~*~
Dear Landlord
Please don't put a price on my soul.
My burden is heavy, dear,
And my dreams are beyond my control,
Oh yes, they are.
[Janis Joplin]

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Poema do beco


Que importa a paisagem, a Glória, a baía, a linha do horizonte?— O que eu vejo é o beco

[Manuel Bandeira]

domingo, 10 de maio de 2009

Ao dia das mães

As mulheres, durante séculos, serviram de espelho aos homens por possuírem o poder mágico e delicioso de refletirem uma imagem do homem duas vezes maior que o natural.

[Virginia Woolf]

~*~

Todos os dias são delas e graças a elas.

sábado, 18 de abril de 2009

Amém

A cada dia que vivo, mais me convenço de que o desperdício da vida está no amor que não damos, nas forças que não usamos, na prudência egoísta que nada arrisca, e que, esquivando-se do sofrimento, perdemos também a felicidade. A dor é inevitável. O sofrimento é opcional.

[Carlos Drummond de Andrade]