[Álvaro de Campos]
Às vezes ela é uma “cidadezinha qualquer”. Singela, com seres simples que se sentam em suas varandas e dão bom dia aos passantes...
E respira...
Porém, sem aviso prévio a vida acontece, e de repente ela é metrópole. Concreto e nuvens negras. Barulho fora dos homens, silêncios entre paredes sólidas de medo...
Não consegue respirar...
Queria ser sempre aquela cidadezinha, com suas vaquinhas malhadas e seu céu desafiadoramente azul, suas flores de perfumes sinceros... Mística de sonhos e luz e orgasmos...
Mas algo acontece, e migra (in) voluntariamente para sua condição de metrópole. É lançada no caos da vertiginosa vida urbana, gera a vida civilizada, amorfa e contida. Com suas máquinas de carne, que deixam correr sangue nas veias e nas calçadas... E tudo está manchado de alguma coisa: sangue, esperma, lodo, tempo, abandono, logro, egoísmo, ódio, indiferença... AMOR... Sim, na metrópole que ela se torna Ele pode manchar, sujar, ou até mesmo matar algo... Ela é o lugar onde a vida acontece enquanto as cabeças estão na ilusão moderna do amanhã...
E Fenece...
Permanece metrópole até lembrar-se de que a cidadezinha existe em algum lugar dentro dela. É quando volta, cheia de esperanças, a ser aqueles perfumes que soltam-se do canto dos pássaros.
Torna-se fênix...
No fundo ela sabe que não pode ser apenas, única e exclusivamente, uma delas...
Sempre estará migrando. E a cada nova transformação algo será perdido ou ganho...
Um amor, um sorriso, palavras... Sonhos.
O fato é que sempre será uma vulnerável transmutação... Não consegue ser diferente... Nem quer.
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