terça-feira, 28 de outubro de 2008

No ônibus

"Sabes
vesti-te de palavras
com o perfume da poesia
só para te despir na leitura"

[José António Gonçalves ]

O viu e tudo nele era tão harmonicamente posicionado...
Ela tinha que olhá-lo nos olhos...


Ele desviou.

Ela não mais o encarou, mas sabia que ele percebera que havia sido notado. O sentiu procurando seu olhar novamente, era o suficiente pra ela que acendeu para si um meio sorriso.

Era a sua mensagem...

E ela pôde perceber que um dia lindo havia nascido. Que tudo ia dar certo, e mesmo que as coisas estivessem difíceis, ao menos isso a fazia sentir que a vida seguia um caminho...

Algo estava acontecendo e isto era importante...

Olha que loucura... Viu tudo isso no rosto dele, ele era tão lindo que ela sentiu vontade de agradecer-lhe por isso...

Acredite, ela sentiu brotar dentro de si uma gratidão profundamente poética... Quase se dirigiu ao moço que a havia acordado para dizer com um sorriso, um caloroso obrigada...

Mas há convenções...

Lá havia um aviso invisível que dizia: “Proibido sorrir”.

Até ali havia um sol que ela não havia sentido...
Um céu cintilantemente azul que ela não havia notado...
E muitas coisas a serem feitas...
Pessoas insistindo em seguir em frente, mesmo que de um jeito "humano, demasiado humano".


Elas seguiam...

Todos os dias, ao acordarem, praticavam o pequeno, subversivo e significativo gesto de continuar.

E continuamos...

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