sábado, 29 de novembro de 2008
quarta-feira, 26 de novembro de 2008
Eles...
"Eu quis tanto ser a tua paz, quis tanto que você fosse o meu encontro. Quis tanto dar, tanto receber. Quis precisar, sem exigências. E sem solicitações, aceitar o que me era dado. Sem ir além, compreende? Não queria pedir mais do que você tinha, assim como eu não daria mais do que dispunha, por limitação humana. Mas o que tinha, era seu. "

"[...] No entanto, o que terminei sendo, e tão cedo? Terminei sendo uma pessoa que procura o que profundamente se sente e usa a palavra que o exprima.É pouco, é muito pouco.”
[C.F. Abreu]
***

"[...] No entanto, o que terminei sendo, e tão cedo? Terminei sendo uma pessoa que procura o que profundamente se sente e usa a palavra que o exprima.É pouco, é muito pouco.”
[Clarice Lispector]
sábado, 22 de novembro de 2008
Das Vantagens de Ser Bobo
"Ser bobo às vezes oferece um mundo de saída porque os espertos só se lembram de sair por meio da esperteza, e o bobo tem originalidade, espontaneamente lhe vem a idéia. O bobo tem oportunidade de ver coisas que os espertos não vêem. Os espertos estão sempre tão atentos às espertezas alheias que se descontraem diante dos bobos, e estes os vêem como simples pessoas humanas. (...) Bobo não reclama. Em compensação como exclama! Os bobos, com todas as suas palhaçadas, devem estar no céu. Se Cristo tivesse sido esperto não teria morrido na cruz. O bobo é sempre tão simpático que há espertos que se fazem passar por bobos. Ser bobo é uma criatividade e, como toda criação, é difícil. Por isso é que os espertos não conseguem passar por bobos. Os espertos ganham dos outros. Em compensação os bobos ganham a vida. (...) É quase impossível evitar excesso de amor que o bobo provoca. É que só o bobo é capaz de excesso de amor. E só o amor faz o bobo."
[Clarice Lispector]
[Clarice Lispector]
segunda-feira, 17 de novembro de 2008
Café e maçãs
Café e maçãs na tarde de Junho.
Num morno recanto civilizado
meus sentidos abarcam uma situação ligeiramente abstrada.
O mundo se tornou hospitaleiro,
como uma trégua no meio da história.
As maçãs emitem um resplendor amarelo,
o café oferece sua fumaça íntima.
Para meu fracasso de indivíduo contemporâneo
tudo isso parece o suficiente,
o frio interno das maçãs,
o calor instável do café,
dois motivos da natureza que fogem do meu controle.
Assim que estou com o traseiro esparramado
num aposento apropriado para minha classe social.
Zelando pelas coisas suaves
fecham-se as portas para o tumulto geral.
Porém às vezes estoura uma bomba no andar de baixo
e a polícia corre para saber quem é quem neste mundo.
[Joaquín O Gianuzzi]
Tradução de Renato Rezende
E não posso acrescentar mais nada a isso...
Num morno recanto civilizado
meus sentidos abarcam uma situação ligeiramente abstrada.
O mundo se tornou hospitaleiro,
como uma trégua no meio da história.
As maçãs emitem um resplendor amarelo,
o café oferece sua fumaça íntima.
Para meu fracasso de indivíduo contemporâneo
tudo isso parece o suficiente,
o frio interno das maçãs,
o calor instável do café,
dois motivos da natureza que fogem do meu controle.
Assim que estou com o traseiro esparramado
num aposento apropriado para minha classe social.
Zelando pelas coisas suaves
fecham-se as portas para o tumulto geral.
Porém às vezes estoura uma bomba no andar de baixo
e a polícia corre para saber quem é quem neste mundo.
[Joaquín O Gianuzzi]
Tradução de Renato Rezende
E não posso acrescentar mais nada a isso...
sexta-feira, 14 de novembro de 2008
Poesia Argentina
Num desses dias em que eu deveria estar fazendo algo que eu não estava fazendo...
Dei de cara com um livro, que só posso classificar como lindo. Uma antologia bilíngüe de poesia argentina e brasileira contemporânea, a qual estou tentanto consumir em doses homeopáticas [como se isto fosse possivel...]. Um dos mestres que me encantou encontrei na página 143. Chama-se Joaquín O Gianuzzi e fiquei totalmente anestesiada com este poema:
Cabeça Final
Todas as ideologias deram-lhe pauladas.
Não conheceu a alegria do possivel.
A história do mundo a humilhou,
e a vergonha de seu país,
a calvície, os dentes perdidos,
uma sombra escavada sob os olhos,
o fracasso pessoal de sua linguagem.
O operário que respirou em seu interior
ávido por oxigênio e um universo constante
deixou cair o martelo. Foi a razão
quem cegou suas próprias janelas. Mas também não encontrou no delírio conclusão alguma.
Por isso, talvez não tenha sido tão rude
essa maneira de negar o mundo ao desperdir-se.
Foi assim:
repousando sobre o último travesseiro
virou para o lado da parede
o pouco que restava do seu rosto.
tradução de Renato Rezende
Mesmo com a visão desiludida de que a vida parece não ter finalidade, de que pouco restará... Mesmo assim, esse poema tem em si algo de extremamente tocante, em que muitos com certeza se encontrarão um dia... Ou já encontraram-se...
Ah! O livro [se algum ser desavisado passar por este post] é PUENTES/PONTES, poesía argentina y brasileña contemporánea / poesia argentina e brasileira contemporânea, com seleções e ensaios de Jorge Monteleone e Heloisa Buarque de Holanda. Vale a pena a leitura ;)
Dei de cara com um livro, que só posso classificar como lindo. Uma antologia bilíngüe de poesia argentina e brasileira contemporânea, a qual estou tentanto consumir em doses homeopáticas [como se isto fosse possivel...]. Um dos mestres que me encantou encontrei na página 143. Chama-se Joaquín O Gianuzzi e fiquei totalmente anestesiada com este poema:
Cabeça Final
Todas as ideologias deram-lhe pauladas.
Não conheceu a alegria do possivel.
A história do mundo a humilhou,
e a vergonha de seu país,
a calvície, os dentes perdidos,
uma sombra escavada sob os olhos,
o fracasso pessoal de sua linguagem.
O operário que respirou em seu interior
ávido por oxigênio e um universo constante
deixou cair o martelo. Foi a razão
quem cegou suas próprias janelas. Mas também não encontrou no delírio conclusão alguma.
Por isso, talvez não tenha sido tão rude
essa maneira de negar o mundo ao desperdir-se.
Foi assim:
repousando sobre o último travesseiro
virou para o lado da parede
o pouco que restava do seu rosto.
tradução de Renato Rezende
Mesmo com a visão desiludida de que a vida parece não ter finalidade, de que pouco restará... Mesmo assim, esse poema tem em si algo de extremamente tocante, em que muitos com certeza se encontrarão um dia... Ou já encontraram-se...
Ah! O livro [se algum ser desavisado passar por este post] é PUENTES/PONTES, poesía argentina y brasileña contemporánea / poesia argentina e brasileira contemporânea, com seleções e ensaios de Jorge Monteleone e Heloisa Buarque de Holanda. Vale a pena a leitura ;)
Gravata
"Então, admitiu o medo. E admitindo o medo permitia-se uma grande liberdade: Sim, podia fazer qualquer coisa, o próximo gesto teria o medo dentro dele e portanto seria um gesto inseguro, não precisava temer, pois antes de fazê-lo já se sabia temendo-o, já se sabia perdendo-se dentro dele - Finalmente podia partir para qualquer coisa, porque de qualquer maneira estaria perdido dentro dela."
[C. F. Abreu, in 'O ovo apunhalado']

terça-feira, 11 de novembro de 2008
Alcoólicas
É crua a vida. Alça de tripa e metal
Nela despenco: pedra mórula ferida.
É CRUA e DURA a vida. Como um naco de víbora.
Como-a no livor da língua
Tinta, lavo-te os atebraços, Vida, lavo-me
No estreito-pouco
Do meu corpo, lavo as vigas dos ossos, minha vida
Tua unha plúmbea, meu casaco rosso
e peramulamos de coturno pela rua
Rubras, góticas, altas de corpo e copos.
A vida é crua. Faminta como o bico dos corvos.
E pode ser tão generosa e mítica: arroio, lágrima
Olho d'água, bebida. A vida é liquida.
[Hilda Hilst]

segunda-feira, 10 de novembro de 2008
Vertigem
“O que é vertigem? Medo de cair? Mas porque temos vertigem num mirante cercado por uma balaustra sólida? Vertigem não é o medo de cair, é outra coisa. É a voz do vazio debaixo de nós, que nos atrai e nos envolve, é o desejo da queda do qual nos defendemos aterrorizados."
[Milan Kundera, "Insustentável Leveza do Ser"]
***
Às vezes...
Mesmo sabendo que é necessário,
Mesmo sabendo que preciso,
Mesmo sabendo que um dia vou entender,
E sabendo que vai passar...
Mesmo assim...
Fico assustada com como a vida dói.
sexta-feira, 7 de novembro de 2008
Mutável
"Multipliquei-me, para me sentir, Para me sentir, precisei sentir tudo, Transbordei, não fiz senão extravasar-me, Despi-me, entreguei-me, E há em cada canto da minha alma um altar a um deus diferente."
[Álvaro de Campos]

Às vezes ela é uma “cidadezinha qualquer”. Singela, com seres simples que se sentam em suas varandas e dão bom dia aos passantes...
E respira...
Porém, sem aviso prévio a vida acontece, e de repente ela é metrópole. Concreto e nuvens negras. Barulho fora dos homens, silêncios entre paredes sólidas de medo...
Não consegue respirar...
Queria ser sempre aquela cidadezinha, com suas vaquinhas malhadas e seu céu desafiadoramente azul, suas flores de perfumes sinceros... Mística de sonhos e luz e orgasmos...
Mas algo acontece, e migra (in) voluntariamente para sua condição de metrópole. É lançada no caos da vertiginosa vida urbana, gera a vida civilizada, amorfa e contida. Com suas máquinas de carne, que deixam correr sangue nas veias e nas calçadas... E tudo está manchado de alguma coisa: sangue, esperma, lodo, tempo, abandono, logro, egoísmo, ódio, indiferença... AMOR... Sim, na metrópole que ela se torna Ele pode manchar, sujar, ou até mesmo matar algo... Ela é o lugar onde a vida acontece enquanto as cabeças estão na ilusão moderna do amanhã...
E Fenece...
Permanece metrópole até lembrar-se de que a cidadezinha existe em algum lugar dentro dela. É quando volta, cheia de esperanças, a ser aqueles perfumes que soltam-se do canto dos pássaros.
Torna-se fênix...
No fundo ela sabe que não pode ser apenas, única e exclusivamente, uma delas...
Sempre estará migrando. E a cada nova transformação algo será perdido ou ganho...
Um amor, um sorriso, palavras... Sonhos.
O fato é que sempre será uma vulnerável transmutação... Não consegue ser diferente... Nem quer.
[Álvaro de Campos]
Às vezes ela é uma “cidadezinha qualquer”. Singela, com seres simples que se sentam em suas varandas e dão bom dia aos passantes...
E respira...
Porém, sem aviso prévio a vida acontece, e de repente ela é metrópole. Concreto e nuvens negras. Barulho fora dos homens, silêncios entre paredes sólidas de medo...
Não consegue respirar...
Queria ser sempre aquela cidadezinha, com suas vaquinhas malhadas e seu céu desafiadoramente azul, suas flores de perfumes sinceros... Mística de sonhos e luz e orgasmos...
Mas algo acontece, e migra (in) voluntariamente para sua condição de metrópole. É lançada no caos da vertiginosa vida urbana, gera a vida civilizada, amorfa e contida. Com suas máquinas de carne, que deixam correr sangue nas veias e nas calçadas... E tudo está manchado de alguma coisa: sangue, esperma, lodo, tempo, abandono, logro, egoísmo, ódio, indiferença... AMOR... Sim, na metrópole que ela se torna Ele pode manchar, sujar, ou até mesmo matar algo... Ela é o lugar onde a vida acontece enquanto as cabeças estão na ilusão moderna do amanhã...
E Fenece...
Permanece metrópole até lembrar-se de que a cidadezinha existe em algum lugar dentro dela. É quando volta, cheia de esperanças, a ser aqueles perfumes que soltam-se do canto dos pássaros.
Torna-se fênix...
No fundo ela sabe que não pode ser apenas, única e exclusivamente, uma delas...
Sempre estará migrando. E a cada nova transformação algo será perdido ou ganho...
Um amor, um sorriso, palavras... Sonhos.
O fato é que sempre será uma vulnerável transmutação... Não consegue ser diferente... Nem quer.
sábado, 1 de novembro de 2008
Hoje
"Ando meio fatigado de procuras inúteis e sedes afetivas insaciáveis."
[Caio F. Abreu]
Hoje, se não lhe tivessem tirado a chance... Ela o faria rir.
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