Num desses dias em que eu deveria estar fazendo algo que eu não estava fazendo...
Dei de cara com um livro, que só posso classificar como lindo. Uma antologia bilíngüe de poesia argentina e brasileira contemporânea, a qual estou tentanto consumir em doses homeopáticas [como se isto fosse possivel...]. Um dos mestres que me encantou encontrei na página 143. Chama-se Joaquín O Gianuzzi e fiquei totalmente anestesiada com este poema:
Cabeça Final
Todas as ideologias deram-lhe pauladas.
Não conheceu a alegria do possivel.
A história do mundo a humilhou,
e a vergonha de seu país,
a calvície, os dentes perdidos,
uma sombra escavada sob os olhos,
o fracasso pessoal de sua linguagem.
O operário que respirou em seu interior
ávido por oxigênio e um universo constante
deixou cair o martelo. Foi a razão
quem cegou suas próprias janelas. Mas também não encontrou no delírio conclusão alguma.
Por isso, talvez não tenha sido tão rude
essa maneira de negar o mundo ao desperdir-se.
Foi assim:
repousando sobre o último travesseiro
virou para o lado da parede
o pouco que restava do seu rosto.
tradução de Renato Rezende
Mesmo com a visão desiludida de que a vida parece não ter finalidade, de que pouco restará... Mesmo assim, esse poema tem em si algo de extremamente tocante, em que muitos com certeza se encontrarão um dia... Ou já encontraram-se...
Ah! O livro [se algum ser desavisado passar por este post] é PUENTES/PONTES, poesía argentina y brasileña contemporánea / poesia argentina e brasileira contemporânea, com seleções e ensaios de Jorge Monteleone e Heloisa Buarque de Holanda. Vale a pena a leitura ;)
sexta-feira, 14 de novembro de 2008
Gravata
"Então, admitiu o medo. E admitindo o medo permitia-se uma grande liberdade: Sim, podia fazer qualquer coisa, o próximo gesto teria o medo dentro dele e portanto seria um gesto inseguro, não precisava temer, pois antes de fazê-lo já se sabia temendo-o, já se sabia perdendo-se dentro dele - Finalmente podia partir para qualquer coisa, porque de qualquer maneira estaria perdido dentro dela."
[C. F. Abreu, in 'O ovo apunhalado']

terça-feira, 11 de novembro de 2008
Alcoólicas
É crua a vida. Alça de tripa e metal
Nela despenco: pedra mórula ferida.
É CRUA e DURA a vida. Como um naco de víbora.
Como-a no livor da língua
Tinta, lavo-te os atebraços, Vida, lavo-me
No estreito-pouco
Do meu corpo, lavo as vigas dos ossos, minha vida
Tua unha plúmbea, meu casaco rosso
e peramulamos de coturno pela rua
Rubras, góticas, altas de corpo e copos.
A vida é crua. Faminta como o bico dos corvos.
E pode ser tão generosa e mítica: arroio, lágrima
Olho d'água, bebida. A vida é liquida.
[Hilda Hilst]

segunda-feira, 10 de novembro de 2008
Vertigem
“O que é vertigem? Medo de cair? Mas porque temos vertigem num mirante cercado por uma balaustra sólida? Vertigem não é o medo de cair, é outra coisa. É a voz do vazio debaixo de nós, que nos atrai e nos envolve, é o desejo da queda do qual nos defendemos aterrorizados."
[Milan Kundera, "Insustentável Leveza do Ser"]
***
Às vezes...
Mesmo sabendo que é necessário,
Mesmo sabendo que preciso,
Mesmo sabendo que um dia vou entender,
E sabendo que vai passar...
Mesmo assim...
Fico assustada com como a vida dói.
sexta-feira, 7 de novembro de 2008
Mutável
"Multipliquei-me, para me sentir, Para me sentir, precisei sentir tudo, Transbordei, não fiz senão extravasar-me, Despi-me, entreguei-me, E há em cada canto da minha alma um altar a um deus diferente."
[Álvaro de Campos]

Às vezes ela é uma “cidadezinha qualquer”. Singela, com seres simples que se sentam em suas varandas e dão bom dia aos passantes...
E respira...
Porém, sem aviso prévio a vida acontece, e de repente ela é metrópole. Concreto e nuvens negras. Barulho fora dos homens, silêncios entre paredes sólidas de medo...
Não consegue respirar...
Queria ser sempre aquela cidadezinha, com suas vaquinhas malhadas e seu céu desafiadoramente azul, suas flores de perfumes sinceros... Mística de sonhos e luz e orgasmos...
Mas algo acontece, e migra (in) voluntariamente para sua condição de metrópole. É lançada no caos da vertiginosa vida urbana, gera a vida civilizada, amorfa e contida. Com suas máquinas de carne, que deixam correr sangue nas veias e nas calçadas... E tudo está manchado de alguma coisa: sangue, esperma, lodo, tempo, abandono, logro, egoísmo, ódio, indiferença... AMOR... Sim, na metrópole que ela se torna Ele pode manchar, sujar, ou até mesmo matar algo... Ela é o lugar onde a vida acontece enquanto as cabeças estão na ilusão moderna do amanhã...
E Fenece...
Permanece metrópole até lembrar-se de que a cidadezinha existe em algum lugar dentro dela. É quando volta, cheia de esperanças, a ser aqueles perfumes que soltam-se do canto dos pássaros.
Torna-se fênix...
No fundo ela sabe que não pode ser apenas, única e exclusivamente, uma delas...
Sempre estará migrando. E a cada nova transformação algo será perdido ou ganho...
Um amor, um sorriso, palavras... Sonhos.
O fato é que sempre será uma vulnerável transmutação... Não consegue ser diferente... Nem quer.
[Álvaro de Campos]
Às vezes ela é uma “cidadezinha qualquer”. Singela, com seres simples que se sentam em suas varandas e dão bom dia aos passantes...
E respira...
Porém, sem aviso prévio a vida acontece, e de repente ela é metrópole. Concreto e nuvens negras. Barulho fora dos homens, silêncios entre paredes sólidas de medo...
Não consegue respirar...
Queria ser sempre aquela cidadezinha, com suas vaquinhas malhadas e seu céu desafiadoramente azul, suas flores de perfumes sinceros... Mística de sonhos e luz e orgasmos...
Mas algo acontece, e migra (in) voluntariamente para sua condição de metrópole. É lançada no caos da vertiginosa vida urbana, gera a vida civilizada, amorfa e contida. Com suas máquinas de carne, que deixam correr sangue nas veias e nas calçadas... E tudo está manchado de alguma coisa: sangue, esperma, lodo, tempo, abandono, logro, egoísmo, ódio, indiferença... AMOR... Sim, na metrópole que ela se torna Ele pode manchar, sujar, ou até mesmo matar algo... Ela é o lugar onde a vida acontece enquanto as cabeças estão na ilusão moderna do amanhã...
E Fenece...
Permanece metrópole até lembrar-se de que a cidadezinha existe em algum lugar dentro dela. É quando volta, cheia de esperanças, a ser aqueles perfumes que soltam-se do canto dos pássaros.
Torna-se fênix...
No fundo ela sabe que não pode ser apenas, única e exclusivamente, uma delas...
Sempre estará migrando. E a cada nova transformação algo será perdido ou ganho...
Um amor, um sorriso, palavras... Sonhos.
O fato é que sempre será uma vulnerável transmutação... Não consegue ser diferente... Nem quer.
sábado, 1 de novembro de 2008
Hoje
"Ando meio fatigado de procuras inúteis e sedes afetivas insaciáveis."
[Caio F. Abreu]
Hoje, se não lhe tivessem tirado a chance... Ela o faria rir.
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