Caio Fernando Abreu
domingo, 22 de novembro de 2009
A sempre companheira, melancolia.
Caio Fernando Abreu
quarta-feira, 11 de novembro de 2009
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Ela esperava tudo do seu silêncio cotidiano. O distanciamento das pessoas, mesmo amando e sendo amada por algumas delas, poucas, ela sabia. O silêncio é um abismo entre corpos, hoje em dia, ninguém mais acredita na proximidade de almas. Então o distanciamento, sim, ela esperava.
As dificuldades sociais? Consequências. Ela habitava uma terra onde interações sociais contavam mais que habilidades intrínsecas. A terra onde se tinha que estabelecer contatos, não laços duradouros. Profissionalmente ela estava fadada a um ostracismo grego. E disso tudo sabia, mas aceitava resignada essa consequência de algo que ela não poderia mudar, nem queria.
A lista é enorme... Há muitas formas de estar em desvantagem nesse mundo, nem sei se alguém já falou das sofridas por pessoas silenciosas, espero que sim. Falta-me habilidade literária, dialética e cientifica pra tecer todas as “pedras no meio do caminho” dessas pessoas. O fato, é que racionalmente ela tinha consciência de muitas, talvez não estivesse suficientemente preparada pra todas, mas esperava, e isso já é alguma coisa.
Entretanto havia uma, aparentemente insignificante, que lhe tirava a paz de saber as consequências do que era, do que conseguia ser. E esta, talvez por ingenuidade emocional, não sei... Esta, ela nunca esperou. Sentia saudades, falta.
Era o seguinte, as pessoas entravam na vida dela, pra conhecer, participar um pouco. Algumas permaneciam outras não, algumas importavam outras não e algumas demoravam um pouco, depois saiam. Falemos dessas ultimas, porque de algumas dessas, ela sentia uma falta absurda, enternecedora.
Ela vivia a perguntar-se por quê. Por que sentia tanta falta se sabia o que era? Ela tinha consciência da sua condição neste mundo, então, que sensação era aquela? Você aceita o que é e acha que daí por diante as coisas ficarão mais fáceis, pessoas inteligentes, sensíveis e fascinantes já afirmaram algo assim, mas não é verdade, não pra ela. Essa saudade, essa falta, tudo isso deixava as coisas bem mais difíceis, bem mais.
O fato é: ela plantava silêncio e colhia saudade.
sábado, 7 de novembro de 2009
e de novo e de novo...
quarta-feira, 14 de outubro de 2009
Filisteus
A palavra filisteu, no sentido não-histórico, refere-se à pessoa deficiente na cultura das Artes liberais, um oponente intolerante do boêmio, quem exibe um código moral restritivo, desapreciador das ideias artísticas.
A partir do século XIX, na Europa, a palavra "filisteu" passou a designar pessoas de comportamento acovardado, que têm ojeriza por questões políticas maiores, não valorizam arte, beleza ou conteúdo intelectual, e satisfazem-se com o cotidiano da vida privada pacata e confortável. O filisteu não seria adepto de ideais, mas apenas de propostas práticas passíveis de ser contabilizadas em melhorias para sua vida privada imediata.
Fonte: aqui.
~*~
Okay. Detestável, mas seria mais fácil, não?
É quase um "não sentir".
Quando se está sufocando, por ter acreditado numa ideia,
você acaba por querer ser o que mais detesta.
E no fim, nada valeu a pena e você se sente um idiota por ter acreditado.
Tem sido assim com as paixões humanas.
sábado, 10 de outubro de 2009
num sábado pudico...

domingo, 4 de outubro de 2009
ele, de novo.
quarta-feira, 30 de setembro de 2009
Observações momentâneas sobre práticas espontâneas I
Se me pedirem algum conselho sobre amor, eu direi: finja e aproveite.
Finja que é pra sempre.
Finja que sua vida começou a partir do momento que o ser amado entrou nela.
Finja que qualquer palavra sobre ele é poesia.
Finja aquelas coisas bobas, das quais você ria quando não estava amando.
Finja que a perspectiva de viver sem ele, é a maior dor que você pode sentir só em pensar.
Finja que seu dia está dividido em “estar ou não estar” com ele.
Finja que ele é a primeira coisa que vem à sua mente ao acordar, a ultima antes que seus olhos fechem para dormir e a que sempre aparece nos seus sonhos.
Finja que irá pensar nele pro resto dos seus dias mesmo que nunca ou nunca mais o veja.
Finja que ele faz de você uma pessoa melhor.
Finja que teu corpo arde de paixão, que tua mente repousa na tranquilidade de tê-lo contigo e que estar com ele, por alguns minutos, é o que você espera da eternidade.
Finja e aproveite cada instante.
Finja e colha os beijos, os abraços, os sorrisos e cada pequeno momento de felicidade.
E quando, enfim, tudo acabar...
Finja que entende.

Imagem: Anna Rusakova
~*~
Seria este um post Woody Allen?
domingo, 27 de setembro de 2009
Diálogo inacabado
Fazer o poema da consciência humana, fosse embora a propósito de um só homem, ou do mais miserável dos homens, seria o mesmo que fundir as epopéias em uma epopéia superior e definitiva.
A consciência é o caos das quimeras, das ambições e das tentações; a fornalha dos sonhos, o antro das idéias vergonhosas; é o pandemônio dos sofismas, o campo de batalha das paixões.
Experimentem, em certas horas, penetrar através da face lívida de um ser humano que reflete,
olhar em seu íntimo, observar sua alma e examinar essa escuridão. Ali, sob o aparente silêncio, há combates de gigantes como em Homero, batalhas de dragões e hidras e nuvens de fantasmas como em Milton, visões de espirais como em Dante.
Que coisa mais sombria é esse infinito que todo ser humano leva em si mesmo, pelo qual desesperadamente mede os desejos de seu cérebro e as ações de sua vida!"
Victor Hugo em "Os Miseráveis"
- Ta doendo.
- Onde?
- Aqui.
- Hum... Então é grave.
- Como sabe?
- Essas são as piores, você até consegue rir com elas. Quero dizer, mesmo que as sinta, mesmo assim, você rir.
- É verdade, sabe... Até consigo viver e tudo mais. Trabalho, converso com as pessoas...
Um tanto com a vista baixa e sem me aprofundar muito, me esquivando. Enfim, ela está aqui, o dia todo, como a roupa que visto e que às vezes passo o dia todo sem que a perceba. Até que anoiteça, que eu pare um pouco, que algo toque no rádio, ou até mesmo um sorriso de alguém me faça perceber que... estou com ela. Ou quando chego a minha casa e finalmente a sinto, tocando minha pele. E mesmo sabendo que nem tinha notado ela antes a impressão que tenho é que ela me incomodou o dia inteiro.
- É como falei, são as piores. Exatamente por isso, você pode viver com elas... você não quer isso, mas consegue...
parei por aqui, mas sinto que continua...
segunda-feira, 31 de agosto de 2009
sábado, 22 de agosto de 2009
Suspenso
Estou levitando
E juntando
Meus pedaços
Recolhendo meus silêncios
Apagando minhas cores
Disfarçando meus perfumes.
Quando entrei deixei tudo
Tudo
Espalhado no ar
Quem olhasse
Não entenderia
E nem adiantaria tentar
Porque tudo
Tudo
Era uma questão de sentir
Como uma fotografia em preto e branco
Onde você só pode imaginar as cores
Elas estão lá
Mas você não as vê
E assim estou
No que você
Não
Vê.
sexta-feira, 14 de agosto de 2009
Depois do perigo

segunda-feira, 3 de agosto de 2009
sábado, 1 de agosto de 2009
Desistiu

Assim:
[Caio F. Abreu]
quinta-feira, 30 de julho de 2009
sábado, 25 de julho de 2009
pois é

Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.
[ Marina Colasanti ]
segunda-feira, 20 de julho de 2009
segunda-feira, 6 de julho de 2009
Desktop
quarta-feira, 27 de maio de 2009
Coração

~*~
No momento, prefiro vê-lo dessa forma.
terça-feira, 26 de maio de 2009
Dói-me
dói-me a mão com que escrevo,
dói-me a palavra que ontem disse,
dói-me o mundo.
Há dias que são como espaços preparados
para que tudo doa.
[Roberto Juarroz]
segunda-feira, 25 de maio de 2009
Memórias de Emília, de Monteiro Lobato
sábado, 23 de maio de 2009
Há algo morrendo no meu quintal
E tão lentamente
Às vezes acho que é só de tristeza.
Vejo uma, estática, num galho seco,
E aos poucos a vida se retira de seu pequeno corpo.
Uma asa está partida, só um pedacinho de suas lindas cores foi retirado...
Mesmo assim ela fenece...
Em vão espero ela regenerar-se,
Mas, em silêncio, vai desistindo da vida...
Talvez até deseje continuar a viver
Mas a natureza decidiu que, se sua beleza foi maculada, é melhor retirar-se.
Ela só poderia continuar a existir se estivesse completa
Triste pensar que algo tão lindo irá morrer
Mas é isso que acontece com as coisas lindas
Elas morrem.
~*~
Melhor tocar Ain't Gone 'n' Give Up On Love em sua marcha fúnebre.
~*~
segunda-feira, 18 de maio de 2009
Nenhum Olhar
sábado, 16 de maio de 2009
Hoje
quinta-feira, 14 de maio de 2009
Poema do beco
domingo, 10 de maio de 2009
Ao dia das mães

quinta-feira, 7 de maio de 2009
quarta-feira, 6 de maio de 2009
sábado, 2 de maio de 2009
Igby Goes Down, 2002

~*~
Odeio admitir que também me pergunto o que raios estava fazendo que ainda não tinha visto isso...
quinta-feira, 30 de abril de 2009
domingo, 26 de abril de 2009
sábado, 25 de abril de 2009
Lou Dorfsman
sábado, 18 de abril de 2009
Amém
[Carlos Drummond de Andrade]
quinta-feira, 16 de abril de 2009
Einmal ist keinmal

Quando a dor te torturar
E a saudade atormentar
Os teus dias tristonhos, vazios
Sorri
Quanto tudo terminar
Quando nada mais restar
Do teu sonho encantador
Sorri
Quando o sol perder a luz
E sentires uma cruz
Nos teus ombros cansados, doloridos
Sorri
Vai mentindo a tua dor
E ao notar que tu sorris
Todo mundo irá supor
Que és feliz
Djavan - Composição: Charles Chaplin
segunda-feira, 13 de abril de 2009
sábado, 11 de abril de 2009
.

~*~
É, pobre garota passional, estás num mundo desperto...
sexta-feira, 10 de abril de 2009
Perdendo o medo de rever algumas coisas
Eu preciso lembrar...
Às vezes eu sinto que há tanta beleza, no mundo...
E eu não posso resistir...
E meu coração, ele vai, desmoronar...”.
quinta-feira, 9 de abril de 2009
Paulo Leminski
letras, literatura,
tudo o que passa,
tudo o que dura
tudo o que duramente passa
tudo o que passageiramente dura
tudo, tudo, tudo,
não passa de caricatura
de você, minha amargura
de ver que viver não tem cura.
quarta-feira, 1 de abril de 2009
quinta-feira, 26 de março de 2009
Henri Cartier-Bresson
Sou louca, loucaaaa... Pirada! Em uma boa fotografia. Chego a sentir meu coração batendo mais forte, mais rápido. Posso ficar horas parada, olhando... Um dos caras que acho genial chama-se Henri Cartier-Bresson. Não tenho subsídios práticos e teóricos suficientes pra falar sobre fotografia por isso, acho melhor deixar que Cartier-Bresson fale (no sentido metafórico, claro, já que ele morreu aos 95 anos): "No meu modo de ver, a fotografia nada mudou desde a sua origem, exceto nos seus aspectos técnicos, os quais não são minha preocupação principal. A fotografia é uma operação instantânea que exprime o mundo em termos visuais, tanto sensoriais como intelectuais, sendo também uma procura e uma interrogação constantes. E' ao mesmo tempo o reconhecimento de um fato numa fração de segundo, e o arranjo rigoroso de formas percebidas visualmente, que conferem a esse fato expressão e significado."
E isto... ↓
E isto... ↓
E mais isto ↓
Oui!
"Fotografar é colocar na mesma linha de mira, a cabeça, o olho e o coração."
terça-feira, 24 de março de 2009
Crônica do Amor
O amor não é chegado a fazer contas, não obedece à razão. O verdadeiro amor acontece por empatia, por magnetismo, por conjunção estelar.
Ninguém ama outra pessoa porque ela é educada, veste-se bem e é fã do Caetano. Isso são só referenciais.
Ama-se pelo cheiro, pelo mistério, pela paz que o outro lhe dá, ou pelo tormento que provoca.
Ama-se pelo tom de voz, pela maneira que os olhos piscam, pela fragilidade que se revela quando menos se espera.
Você ama aquela petulante. Você escreveu dúzias de cartas que ela não respondeu, você deu flores que ela deixou a seco.
Você gosta de rock e ela de chorinho, você gosta de praia e ela tem alergia a sol, você abomina Natal e ela detesta o Ano Novo, nem no
ódio vocês combinam. Então?
Então, que ela tem um jeito de sorrir que o deixa imobilizado, o beijo dela é mais viciante do que LSD, você adora brigar com ela e ela adora implicar com você. Isso tem nome.
Você ama aquele cafajeste. Ele diz que vai e não liga, ele veste o primeiro trapo que encontra no armário. Ele não emplaca uma semana nos empregos, está sempre duro, e é meio galinha. Ele não tem a
menor vocação para príncipe encantado e ainda assim você não consegue despachá-lo.
Quando a mão dele toca na sua nuca, você derrete feito manteiga. Ele toca gaita na boca, adora animais e escreve poemas. Por que você ama
este cara?
Não pergunte pra mim; você é inteligente. Lê livros, revistas, jornais. Gosta dos filmes dos irmãos Coen e do Robert Altman, mas sabe que uma boa comédia romântica também tem seu valor.
É bonita. Seu cabelo nasceu para ser sacudido num comercial de xampu e seu corpo tem todas as curvas no lugar. Independente, emprego fixo, bom saldo no banco. Gosta de viajar, de música, tem loucura
por computador e seu fettucine ao pesto é imbatível.
Você tem bom humor, não pega no pé de ninguém e adora sexo. Com um currículo desse, criatura, por que está sem um amor?
Ah, o amor, essa raposa. Quem dera o amor não fosse um sentimento, mas uma equação matemática: eu linda + você inteligente = dois apaixonados.
Não funciona assim.
Amar não requer conhecimento prévio nem consulta ao SPC. Ama-se justamente pelo que o Amor tem de indefinível.
Honestos existem aos milhares, generosos têm às pencas, bons motoristas e bons pais de família, tá assim, ó!
Mas ninguém consegue ser do jeito que o amor da sua vida é! Pense nisso. Pedir é a maneira mais eficaz de merecer. É a contingência maior de quem precisa."
Arnaldo Jabor
segunda-feira, 23 de março de 2009
Trecho de Axelrod
de Hilda Hilst
Unir-se, Axelrod, unir-se a alguém, é disso que precisas. A quem? À História? Como se ela fosse alguém essa falada História, penugenta andando por aí, como se ela fosse real, olha aí a História, tá passando aí, olha pra ela, olha a História te engolindo, jantas hoje com a História, os filhinhos da História, Marat marx mao, o primeiro homicida, o segundo tantas coisas humanista sociólogo economista agitador, ó tão fundo esse segundo, tão História tão Estado. E que terceiro, ó gente, que terceiro.
já leu Marx?
maçante aquilo tudo
mas leu?
sim, o que pude conseguir, as cartas aos amigos dizem mais dele do que tudo
que límpido ordenado, que precisões hen? liberdade pra quê? liberdade têm os outros de te montar em cima, de te arrancarem o naco de carne da boca, tens medo de que te tirem o quê se não tens nada?
Marx meu amor, te amei tão História, Mao e Shu vocês também, que soerguido vital, que caminhadas que floração, que linguagem, e fui relendo, anotando, cintilantes esquemas, destrinchações, como se eu fosse jantar com a História logo mais, como se eu fosse meter com a História, as pernocas abertas da História, as coxonas cozidas de tão faladas, o vaginão da História, vermelhusco, baboso, e o meu fiapo magro nadando lá por dentrojá leu tudo, menino? já sabe tudo de mim, como me fiz, o que sou?
sim dona História
viu que gente de primeira já andou por aí?
sim dona História
e que sangueira hen filho? Que linguagens, que porte, que pompas
Vou entrando na História, endurecendo, vou morrendo explodindo em faíscas, a cavernosa vai me comendo, ímã gozoso, já não sou Axelrod Silva, sou nomes, fachadas, sou máscara, já não penso, pensam por mim, sou credo, sou catecismo, sou bandeira, sou acorde, sou principalmente Político, o peito teso empinado, tenho idéias mas já não sou Axelrod Silva, tudo o que quiserdes, menos eu, a História me chupa inteiro, a língua porejando sangue
goza filhinho
sim dona História, vou indo, estou cheio de idéias, tenho dúvidas, tenho gozos rápidos e agudos, vou te apalpando agora, o povo me olha, o povo quer muito de mim, gosto do povo, devo ser o povo, devo ser um único e harmônico povo-ovo, devo morrer pelo povo, adentrado nele, devo rugir e ser um só com o povo, Axelrod-povo, Axelrod-coesão, virulência, Axelrod-filho do povo, HISTÓRIA/POVO, janto com meus pais, sopa de proletariado, pãezinhos mencheviques, engulo o monopólio, emocionado bebo a revolução, lento vou digerindo o intelecto, mas estou faminto, estarei sempre faminto, cago capitalismo, o lucro, a bolsa de títulos, e ainda estou faminto, ô meu deus, eu me quero a mim, ossudo seco, eu.
(...)
(Axelrod in "Tu não te moves de ti" - SP: Cultura, 1980.)
~*~
Amo essa mulher!
sábado, 21 de março de 2009
Madrugada
Ao menos dá uma chance pra ela falar tua língua
Seguir teu ritmo
Entrar na tua
Talvez um dia ela pare e entenda que você só quis entendê-la
E se você abriu os braços foi pra abraçá-la
E que só cerrou os lábios, pra escutá-la
E quando ela estava aos gritos, aos prantos, aos tantos:
Se estendeu a mão, foi pra tocá-la...
Se falou baixinho, foi pra acalmá-la...
E se berrou tão alto, pra controlá-la...
Não se preocupe, um dia ela terá que entender que é sua...
Mesmo que hoje ela resista e te desafie
E te arranhe a carne
E verta teu sangue
Já viu a importância que ela dá as cores?
Aos tons...
Aos sons...
Às dores.
E se ela finalmente calar?
Já pensou?
Você diante do silencio da vida...
Da di-solução de tudo
20/03/09
quarta-feira, 18 de março de 2009
Porque todos os seus dias podem ser encontrados em algum livro do Caio
[C.F.A]

*Em breve minhas proprias fotografias... aí que emoção. *.*
terça-feira, 17 de março de 2009
João Cabral de Melo Neto
O amor comeu minhas roupas, meus lenços, minhas camisas. O amor comeu metros e metros de gravatas. O amor comeu a medida de meus ternos, o número de meus sapatos, o tamanho de meus chapéus. O amor comeu minha altura, meu peso, a cor de meus olhos e de meus cabelos.
O amor comeu meus remédios, minhas receitas médicas, minhas dietas. Comeu minhas aspirinas, minhas ondas-curtas, meus raios-X. Comeu meus testes mentais, meus exames de urina.
O amor comeu na estante todos os meus livros de poesia. Comeu em meus livros de prosa as citações em verso. Comeu no dicionário as palavras que poderiam se juntar em versos.
Faminto, o amor devorou os utensílios de meu uso: pente, navalha, escovas, tesouras de unhas, canivete. Faminto ainda, o amor devorou o uso de meus utensílios: meus banhos frios, a ópera cantada no banheiro, o aquecedor de água de fogo morto mas que parecia uma usina.
O amor comeu as frutas postas sobre a mesa. Bebeu a água dos copos e das quartinhas. Comeu o pão de propósito escondido. Bebeu as lágrimas dos olhos que, ninguém o sabia, estavam cheios de água.
O amor voltou para comer os papéis onde irrefletidamente eu tornara a escrever meu nome.
O amor roeu minha infância, de dedos sujos de tinta, cabelo caindo nos olhos, botinas nunca engraxadas. O amor roeu o menino esquivo, sempre nos cantos, e que riscava os livros, mordia o lápis, andava na rua chutando pedras. Roeu as conversas, junto à bomba de gasolina do largo, com os primos que tudo sabiam sobre passarinhos, sobre uma mulher, sobre marcas de automóvel.
O amor comeu meu Estado e minha cidade. Drenou a água morta dos mangues, aboliu a maré. Comeu os mangues crespos e de folhas duras, comeu o verde ácido das plantas de cana cobrindo os morros regulares, cortados pelas barreiras vermelhas, pelo trenzinho preto, pelas chaminés. Comeu o cheiro de cana cortada e o cheiro de maresia. Comeu até essas coisas de que eu desesperava por não saber falar delas em verso.
O amor comeu até os dias ainda não anunciados nas folhinhas. Comeu os minutos de adiantamento de meu relógio, os anos que as linhas de minha mão asseguravam. Comeu o futuro grande atleta, o futuro grande poeta. Comeu as futuras viagens em volta da terra, as futuras estantes em volta da sala.
O amor comeu minha paz e minha guerra. Meu dia e minha noite. Meu inverno e meu verão. Comeu meu silêncio, minha dor de cabeça, meu medo da morte.
sábado, 14 de março de 2009
"A gente pode esquecer dos sonhos mas os sonhos não esquecem da gente."
[Milan kundera]
quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009
Sufocada

Até tentar novamente, pensei que já tivesse feito
Mas nunca fiz...
Agora não consigo mais...
E esta aflição de não mais fazer o que pensara ter feito
Esta ânsia de repetir...
Mas como?
É tarde?
Sinto que já deveria ter feito há muito tempo...
Ao menos uma vez, uma única vez...
Uma vez única...
Neles até as minhas unhas sentem que já fiz.
Acredito nelas... Quem desconfiaria das suas próprias unhas?!
Quero dizer, são as SUAS unhas! Elas devem estar certas.
Mas não...
É tarde...
Na vida curta que desejo, sei que é tarde.
Dói pensar que, daqui pra frente, talvez eu nunca mais consiga...
E se, na curta vida que desejo ter, houve um momento...
Um momento decisivo, aqueles divisores...
Aquele antes dos dois caminhos a seguir...
Onde eu deveria ter feito... e não fiz.
E perdi! Perdi a bendita oportunidade de ter feito...
É provável...
Essa ideia é tão esmagadora.
Ninguém diz o que resta depois dela.
Chego a sentir saudade do que fiz...
sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009
Vazio

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009
Sobre o amor
Amar você é também mergulhar nos meus textos e ficar submersa observando as coisas por dentro porque a densidade delas é o essencial, é o meu centro. É entender tuas limitações porque me olho e vejo as minhas, é conceber minhas mudanças porque também vejo as tuas. É não deixar que nada corrompa nossas essências, porque nos queremos melhorar para o mundo, porque queremos embelezar nosso universo, porque queremos ser além das aparências. É saber que cada passo que dou será na direção que escolhi e que só terei o conforto da sua companhia se, por acaso, quiser seguir o mesmo rumo. Porque somos unos, múltiplos, imensos, nunca os mesmos, sempre os únicos, os mais intensos.
É encontrar leveza nas emoções que nos transbordaram porque estávamos prontos. É escrever um dicionário de palavras distraídas. E adentrar o corpo de um poema recente, ainda disforme. É falar de amor usando a metáfora mais inocente. É também experimentar a simplicidade com que tudo pode ser vivido, até àquela hora em que o desejo dorme. É vir à tona e, sem sustos, te deixar ser e me vir refletida, pedra bruta antes de ser polida, até a hora da próxima fome.
Amar você é amar aquilo que, de outra forma, jamais faria sentido: é abraçar teu passado, teus traumas, teus vazios, tuas confusões e angústias existenciais como quem abraça a um amigo.
É agradecer profundamente, ao acordar, por esta pessoa inteira, que jamais será uma metade e que me escolheu para a soma, e que com todas as alternativas que teve, preferiu seguir comigo.
(Amar você me fortalece.)
[Marla de Queiroz]
quinta-feira, 15 de janeiro de 2009
domingo, 4 de janeiro de 2009
Sonetos que não são
Aflição de não ser, amor, aquela
Que muitas filhas te deu, casou donzela
E à noite se prepara e se adivinha
Objeto de amor, atenta e bela.
Aflição de não ser a grande ilha
Que te retém e não te desespera.
(A noite como fera se avizinha.)
Aflição de ser água em meio à terra
E ter a face conturbada e móvel.
E a um só tempo múltipla e imóvel
Não saber se se ausenta ou se te espera.
Aflição de te amar, se te comove.
E sendo água, amor, querer ser terra.
Roteiro do Silêncio(1959)
[Hilda Hilst]







~*~


