domingo, 22 de novembro de 2009

A sempre companheira, melancolia.

você tem tanta vontade de chorar, tanta vontade de ir embora. para que o protejam, para que sintam falta. tanta vontade de viajar para bem longe, romper todos os laços, sem deixar endereço. um dia mandará um cartão-postal de algum lugar improvável. Bali, Madagascar, Sumatra. escreverá: penso em você. deve ser bonito, mesmo melancólico, alguém que se foi pensar em você num lugar improvável como esse. você se comove com o que não acontece, você sente frio e medo. parado atrás da vidraça, olhando a chuva que, aos poucos começa a passar.


Caio Fernando Abreu

não tenho culpa se ele sempre entende.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009


"Um silêncio apavorado com o medo em solidão, um silêncio de torturas e gritos de maldição ...
Mas tende piedade também dos que
buscam o silêncio ..."
[Vinicius de Moraes]

Ela esperava tudo do seu silêncio cotidiano. O distanciamento das pessoas, mesmo amando e sendo amada por algumas delas, poucas, ela sabia. O silêncio é um abismo entre corpos, hoje em dia, ninguém mais acredita na proximidade de almas. Então o distanciamento, sim, ela esperava.

As dificuldades sociais? Consequências. Ela habitava uma terra onde interações sociais contavam mais que habilidades intrínsecas. A terra onde se tinha que estabelecer contatos, não laços duradouros. Profissionalmente ela estava fadada a um ostracismo grego. E disso tudo sabia, mas aceitava resignada essa consequência de algo que ela não poderia mudar, nem queria.

A lista é enorme... Há muitas formas de estar em desvantagem nesse mundo, nem sei se alguém já falou das sofridas por pessoas silenciosas, espero que sim. Falta-me habilidade literária, dialética e cientifica pra tecer todas as “pedras no meio do caminho” dessas pessoas. O fato, é que racionalmente ela tinha consciência de muitas, talvez não estivesse suficientemente preparada pra todas, mas esperava, e isso já é alguma coisa.

Entretanto havia uma, aparentemente insignificante, que lhe tirava a paz de saber as consequências do que era, do que conseguia ser. E esta, talvez por ingenuidade emocional, não sei... Esta, ela nunca esperou. Sentia saudades, falta.

Era o seguinte, as pessoas entravam na vida dela, pra conhecer, participar um pouco. Algumas permaneciam outras não, algumas importavam outras não e algumas demoravam um pouco, depois saiam. Falemos dessas ultimas, porque de algumas dessas, ela sentia uma falta absurda, enternecedora.

Ela vivia a perguntar-se por quê. Por que sentia tanta falta se sabia o que era? Ela tinha consciência da sua condição neste mundo, então, que sensação era aquela? Você aceita o que é e acha que daí por diante as coisas ficarão mais fáceis, pessoas inteligentes, sensíveis e fascinantes já afirmaram algo assim, mas não é verdade, não pra ela. Essa saudade, essa falta, tudo isso deixava as coisas bem mais difíceis, bem mais.

O fato é: ela plantava silêncio e colhia saudade.

sábado, 7 de novembro de 2009

e de novo e de novo...

Eu achei que quando passasse o tempo, eu achei que quando eu finalmente te visse tão livre, tão forte e tão indiferente, eu achei que quando eu sentisse o fim, eu achei que passaria. Não passa nunca, mas quase passa todos os dias.

caio.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Filisteus

A palavra filisteu, no sentido não-histórico, refere-se à pessoa deficiente na cultura das Artes liberais, um oponente intolerante do boêmio, quem exibe um código moral restritivo, desapreciador das ideias artísticas.

A partir do século XIX, na Europa, a palavra "filisteu" passou a designar pessoas de comportamento acovardado, que têm ojeriza por questões políticas maiores, não valorizam arte, beleza ou conteúdo intelectual, e satisfazem-se com o cotidiano da vida privada pacata e confortável. O filisteu não seria adepto de ideais, mas apenas de propostas práticas passíveis de ser contabilizadas em melhorias para sua vida privada imediata.


Fonte: aqui.

~*~

Okay. Detestável, mas seria mais fácil, não?

É quase um "não sentir".

Quando se está sufocando, por ter acreditado numa ideia,

você acaba por querer ser o que mais detesta.

E no fim, nada valeu a pena e você se sente um idiota por ter acreditado.

Tem sido assim com as paixões humanas.


sábado, 10 de outubro de 2009

num sábado pudico...


"Ah! Essas pessoas sensatas!”, exclamei sorrindo. “Paixão! Embriaguez! Loucura! Vocês, pessoas decentes, ficam aí impassíveis, censurando os bêbados, abominando os insensatos, seguem o seu caminho como um padre e agradecem a Deus como um fariseu, por não tê-los feito iguais a nenhum deles. Por mais de uma vez me embriaguei e as minhas paixões estiveram à beira da loucura, e não me arrependo disso; pois, de uma certa forma, consegui compreender por que todos os homens extraordinários, que fizeram alguma coisa grande, alguma coisa inacreditável, sempre foram chamados de bêbados ou loucos. Mas também na vida comum é insuportável acabar de executar uma ação espontânea, nobre e inesperada, e logo ouvir alguém dizendo: ‘Este homem está bêbado, está doido!’. Vocês, sóbrios, não têm vergonha? Vocês, eruditos, não têm vergonha?"

Os sofrimentos do jovem Werther, Goethe.

domingo, 4 de outubro de 2009

ele, de novo.

não te tocar, não pedir um abraço, não pedir ajuda, não dizer que estou ferido, que quase morri, não dizer nada, fechar os olhos, ouvir o barulho do mar, fingindo dormir, que tudo esta bem, os hematomas no plexo solar, o coração rasgado, tudo bem.

Caio F. Abreu

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Observações momentâneas sobre práticas espontâneas I


Se me pedirem algum conselho sobre amor, eu direi: finja e aproveite.

Finja que é pra sempre.

Finja que sua vida começou a partir do momento que o ser amado entrou nela.

Finja que qualquer palavra sobre ele é poesia.

Finja aquelas coisas bobas, das quais você ria quando não estava amando.

Finja que a perspectiva de viver sem ele, é a maior dor que você pode sentir só em pensar.

Finja que seu dia está dividido em “estar ou não estar” com ele.

Finja que ele é a primeira coisa que vem à sua mente ao acordar, a ultima antes que seus olhos fechem para dormir e a que sempre aparece nos seus sonhos.

Finja que irá pensar nele pro resto dos seus dias mesmo que nunca ou nunca mais o veja.

Finja que ele faz de você uma pessoa melhor.

Finja que teu corpo arde de paixão, que tua mente repousa na tranquilidade de tê-lo contigo e que estar com ele, por alguns minutos, é o que você espera da eternidade.

Finja e aproveite cada instante.

Finja e colha os beijos, os abraços, os sorrisos e cada pequeno momento de felicidade.

E quando, enfim, tudo acabar...

Finja que entende.

Imagem: Anna Rusakova

~*~

Seria este um post Woody Allen?


domingo, 27 de setembro de 2009

Diálogo inacabado

"Existe uma coisa que é maior que o mar: o céu. Existe um espetáculo maior que o céu: é o interior de uma alma.

Fazer o poema da consciência humana, fosse embora a propósito de um só homem, ou do mais miserável dos homens, seria o mesmo que fundir as epopéias em uma epopéia superior e definitiva.
A consciência é o caos das quimeras, das ambições e das tentações; a fornalha dos sonhos, o antro das idéias vergonhosas; é o pandemônio dos sofismas, o campo de batalha das paixões.

Experimentem, em certas horas, penetrar através da face lívida de um ser humano que reflete,
olhar em seu íntimo, observar sua alma e examinar essa escuridão. Ali, sob o aparente silêncio, há combates de gigantes como em Homero, batalhas de dragões e hidras e nuvens de fantasmas como em Milton, visões de espirais como em Dante.
Que coisa mais sombria é esse infinito que todo ser humano leva em si mesmo, pelo qual desesperadamente mede os desejos de seu cérebro e as ações de sua vida!"

Victor Hugo em "Os Miseráveis"

ou apenas, o croqui de uma conversa...

- Ta doendo.

- Onde?

- Aqui.

- Hum... Então é grave.

- Como sabe?

- Essas são as piores, você até consegue rir com elas. Quero dizer, mesmo que as sinta, mesmo assim, você rir.

- É verdade, sabe... Até consigo viver e tudo mais. Trabalho, converso com as pessoas...

Um tanto com a vista baixa e sem me aprofundar muito, me esquivando. Enfim, ela está aqui, o dia todo, como a roupa que visto e que às vezes passo o dia todo sem que a perceba. Até que anoiteça, que eu pare um pouco, que algo toque no rádio, ou até mesmo um sorriso de alguém me faça perceber que... estou com ela. Ou quando chego a minha casa e finalmente a sinto, tocando minha pele. E mesmo sabendo que nem tinha notado ela antes a impressão que tenho é que ela me incomodou o dia inteiro.

- É como falei, são as piores. Exatamente por isso, você pode viver com elas... você não quer isso, mas consegue...

parei por aqui, mas sinto que continua...

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

sábado, 22 de agosto de 2009

Suspenso


Estou levitando

E juntando

Meus pedaços

Recolhendo meus silêncios

Apagando minhas cores

Disfarçando meus perfumes.

Quando entrei deixei tudo

Tudo

Espalhado no ar

Quem olhasse

Não entenderia

E nem adiantaria tentar

Porque tudo

Tudo

Era uma questão de sentir

Como uma fotografia em preto e branco

Onde você só pode imaginar as cores

Elas estão lá

Mas você não as vê

E assim estou

No que você

Não

Vê.

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Depois do perigo

Não, não me aqueça
Hoje eu quero o frio
O vazio
Que a sorte deixou aqui
Quero sentir a altura do abismo
Pra eu poder subir depois do perigo

Não, não me acalme com silabas doces
Hoje eu quero o açoite das palavras rudes
Pra que eu possa me defender em atitudes
Não, por favor hoje não me proteja
Para que eu finalmente veja
O que a vida reservou para mim.


Zelia Duncan

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Ok mundo, pode parar de cair na minha cabeça.
Já entendi que você é bem maior que eu.

sábado, 1 de agosto de 2009

Desistiu


Okay,
Tudo bem, é realmente muito difícil ler pensamentos...
Ela só queria livrar-se do medo.
Havia um jeito,
mas entendo... é realmente muito difícil ler pensamentos.

Assim:

Olha, eu sei que o barco tá furado e sei que você também sabe, mas queria te dizer pra não parar de remar, porque te ver remando me dá vontade de não querer parar também.

[Caio F. Abreu]

quinta-feira, 30 de julho de 2009

Humpf!

Está muito cansado pra tentar de novo
E é muito cedo pra desistir?
É... o problema é seu.

sábado, 25 de julho de 2009

pois é


A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E, porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E, porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E, porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E, à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.
A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá (...) A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele. Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se de faca e baioneta, para poupar o peito. A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que, gasta de tanto acostumar, se perde de si mesma.

Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.

[ Marina Colasanti ]

segunda-feira, 6 de julho de 2009

Desktop

Apresento-lhes minha área de trabalho...
~*~
~*~

♫♪ "De agora em diante ficarei assim, desedificante". ♫♪

quarta-feira, 27 de maio de 2009

Coração

“Já viu o coração humano? Ele é como um punho cheio de sangue.”
[Closer]

~*~

No momento, prefiro vê-lo dessa forma.

terça-feira, 26 de maio de 2009

Dói-me

Hoje dói-me pensar,
dói-me a mão com que escrevo,
dói-me a palavra que ontem disse,
dói-me o mundo.
Há dias que são como espaços preparados
para que tudo doa.

[Roberto Juarroz]

segunda-feira, 25 de maio de 2009

Memórias de Emília, de Monteiro Lobato

“A vida, Senhor Visconde, é um pisca-pisca. A gente nasce, isto é, começa a piscar. Quem pára de piscar, chegou ao fim, morreu. Piscar é abrir e fechar os olhos - viver é isso. É um dorme-e-acorda, dorme-e-acorda, até que dorme e não acorda mais. A vida das gentes neste mundo, senhor sabugo, é isso. Um rosário de piscadas. Cada pisco é um dia. Pisca e mama. Pisca e anda. Pisca e brinca. Pisca e estuda. Pisca e ama. Pisca e cria filhos. Pisca e geme os reumatismos. Por fim, pisca pela última vez e morre.- E depois que morre - perguntou o Visconde.- Depois que morre, vira hipótese. É ou não é?”

sábado, 23 de maio de 2009

Há algo morrendo no meu quintal

Borboletas também morrem
E tão lentamente
Às vezes acho que é só de tristeza.
Vejo uma, estática, num galho seco,
E aos poucos a vida se retira de seu pequeno corpo.
Uma asa está partida, só um pedacinho de suas lindas cores foi retirado...
Mesmo assim ela fenece...
Em vão espero ela regenerar-se,
Mas, em silêncio, vai desistindo da vida...
Talvez até deseje continuar a viver
Mas a natureza decidiu que, se sua beleza foi maculada, é melhor retirar-se.
Ela só poderia continuar a existir se estivesse completa
Triste pensar que algo tão lindo irá morrer
Mas é isso que acontece com as coisas lindas
Elas morrem.

~*~

Melhor tocar Ain't Gone 'n' Give Up On Love em sua marcha fúnebre.

~*~

segunda-feira, 18 de maio de 2009

Nenhum Olhar

"Penso: talvez o sofrimento seja lançado às multidões em punhados e talvez o grosso caia em cima de uns e pouco ou nada em cima de outros. Ainda que o peso do meu peito seja custoso, qual é o peso de um abismo? Ainda que me sinta um cego a crescer sem olhos para um precipício, tenho que me lavantar desta cama. Tenho de levantar estes braços que não são meus, tenho de levantar estas pernas que não são minhas, mas de um rochedo, e ir tratar das ovelhas. A minha cadela. O campo. O sobreiro grande. Que sombra estará agora debaixo do sobreiro grande? Ainda que caminhe pela noite ao meio da tarde, ainda que no pico do sol seja o mais negro da noite e dentro da noite seja noite também, por tudo ser noite aos meus olhos, tenho de me levantar desta cama. Mesmo que seja para sofrer sofrer, tenho de ir de encontro àquilo que serei, por ter sido isto e não poder fugir, não poder fugir de me tornar alguma coisa."
[José Luís Peixoto]

sábado, 16 de maio de 2009

Hoje

"Amanheci em cólera. Não, não, o mundo não me agrada. A maioria das pessoas estão mortas e não sabem, ou estão vivas com charlatanismo. E o amor, em vez de dar, exige. E quem gosta de nós quer que sejamos alguma coisa de que eles precisam. Mentir da remorso. E não mentir é um dom que o mundo não merece. E nem ao menos posso fazer o que uma menina semiparalítica fez em vingança: quebrar um jarro. Não sou semiparalítica. Embora alguma coisa em mim diga que somos todos semiparalíticos. E morre-se, sem ao menos uma explicação. E o pior, vive-se sem ao menos uma explicação.
[…]
E se tento falar, Sai um rugido de tristeza. Então não é cólera apenas? Não, é tristeza
também"
[C.L]
~*~
Dear Landlord
Please don't put a price on my soul.
My burden is heavy, dear,
And my dreams are beyond my control,
Oh yes, they are.
[Janis Joplin]

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Poema do beco


Que importa a paisagem, a Glória, a baía, a linha do horizonte?— O que eu vejo é o beco

[Manuel Bandeira]

domingo, 10 de maio de 2009

Ao dia das mães

As mulheres, durante séculos, serviram de espelho aos homens por possuírem o poder mágico e delicioso de refletirem uma imagem do homem duas vezes maior que o natural.

[Virginia Woolf]

~*~

Todos os dias são delas e graças a elas.

sábado, 2 de maio de 2009

Igby Goes Down, 2002

"Sabe no que penso quando estou perto assim de outra pessoa?
Penso... que um dia em certo momento este corpo que estou abraçando vai parar de respirar, parar de viver, simplesmente... vai parar."

~*~

Odeio admitir que também me pergunto o que raios estava fazendo que ainda não tinha visto isso...

domingo, 26 de abril de 2009

sábado, 25 de abril de 2009

Lou Dorfsman

~*~~*~
Lou Dorsfman foi basicamente o design gênio da CBS Television network.
Detinha sensibilidade e sacadas gráficas incríveis.

sábado, 18 de abril de 2009

Amém

A cada dia que vivo, mais me convenço de que o desperdício da vida está no amor que não damos, nas forças que não usamos, na prudência egoísta que nada arrisca, e que, esquivando-se do sofrimento, perdemos também a felicidade. A dor é inevitável. O sofrimento é opcional.

[Carlos Drummond de Andrade]

quinta-feira, 16 de abril de 2009

Einmal ist keinmal


Sorri

Quando a dor te torturar

E a saudade atormentar

Os teus dias tristonhos, vazios

Sorri

Quanto tudo terminar

Quando nada mais restar

Do teu sonho encantador

Sorri

Quando o sol perder a luz

E sentires uma cruz

Nos teus ombros cansados, doloridos

Sorri

Vai mentindo a tua dor

E ao notar que tu sorris

Todo mundo irá supor

Que és feliz

Djavan - Composição: Charles Chaplin
~*~
"Não poder viver mais do que uma vida é como não viver nunca."
[Milan Kundera]

segunda-feira, 13 de abril de 2009

sábado, 11 de abril de 2009

.

"Nos sonhos, as emoções fascinam."
[The Science Of Sleep]

~*~

É, pobre garota passional, estás num mundo desperto...

sexta-feira, 10 de abril de 2009

Perdendo o medo de rever algumas coisas

“Era um dia daqueles, alguns minutos antes de nevar...
E havia eletricidade no ar...
Quase dá pra ouvir... né?!
E esse saco tava... dançando, comigo...
Como um garotinho implorando pra brincar...
Durou 15 minutos...
Foi nesse dia que eu percebi que havia vida por trás das coisas...
E essa incrível força benevolente, que queria que eu soubesse que não havia razão pra ter medo... Nunca.
O vídeo é uma substituição inferior, eu sei... Mas ajuda a me lembrar...
Eu preciso lembrar...
Às vezes eu sinto que há tanta beleza, no mundo...
E eu não posso resistir...
E meu coração, ele vai, desmoronar...”.

[American Beauty]
~Inesquecível~

quinta-feira, 9 de abril de 2009

Paulo Leminski

Leite, leitura,
letras, literatura,
tudo o que passa,
tudo o que dura
tudo o que duramente passa
tudo o que passageiramente dura
tudo, tudo, tudo,
não passa de caricatura
de você, minha amargura
de ver que viver não tem cura.

quarta-feira, 1 de abril de 2009

"Ando meio fatigado de procuras inúteis e sedes afetivas insaciáveis."
[Caio F. Abreu]
~*~
Até agora posso resumir tudo a esse cansaço...

quinta-feira, 26 de março de 2009

Henri Cartier-Bresson



Sou louca, loucaaaa... Pirada! Em uma boa fotografia. Chego a sentir meu coração batendo mais forte, mais rápido. Posso ficar horas parada, olhando... Um dos caras que acho genial chama-se Henri Cartier-Bresson. Não tenho subsídios práticos e teóricos suficientes pra falar sobre fotografia por isso, acho melhor deixar que Cartier-Bresson fale (no sentido metafórico, claro, já que ele morreu aos 95 anos): "No meu modo de ver, a fotografia nada mudou desde a sua origem, exceto nos seus aspectos técnicos, os quais não são minha preocupação principal. A fotografia é uma operação instantânea que exprime o mundo em termos visuais, tanto sensoriais como intelectuais, sendo também uma procura e uma interrogação constantes. E' ao mesmo tempo o reconhecimento de um fato numa fração de segundo, e o arranjo rigoroso de formas percebidas visualmente, que conferem a esse fato expressão e significado."
Pra quem não entendeu, ele quis dizer isto...

E isto...

E isto...

E mais isto

Oui!

"Fotografar é colocar na mesma linha de mira, a cabeça, o olho e o coração."

terça-feira, 24 de março de 2009

Crônica do Amor

Ninguém ama outra pessoa pelas qualidades que ela tem, caso contrário os honestos, simpáticos e não fumantes teriam uma fila de pretendentes batendo a porta.

O amor não é chegado a fazer contas, não obedece à razão. O verdadeiro amor acontece por empatia, por magnetismo, por conjunção estelar.

Ninguém ama outra pessoa porque ela é educada, veste-se bem e é fã do Caetano. Isso são só referenciais.

Ama-se pelo cheiro, pelo mistério, pela paz que o outro lhe dá, ou pelo tormento que provoca.

Ama-se pelo tom de voz, pela maneira que os olhos piscam, pela fragilidade que se revela quando menos se espera.

Você ama aquela petulante. Você escreveu dúzias de cartas que ela não respondeu, você deu flores que ela deixou a seco.

Você gosta de rock e ela de chorinho, você gosta de praia e ela tem alergia a sol, você abomina Natal e ela detesta o Ano Novo, nem no
ódio vocês combinam. Então?

Então, que ela tem um jeito de sorrir que o deixa imobilizado, o beijo dela é mais viciante do que LSD, você adora brigar com ela e ela adora implicar com você. Isso tem nome.

Você ama aquele cafajeste. Ele diz que vai e não liga, ele veste o primeiro trapo que encontra no armário. Ele não emplaca uma semana nos empregos, está sempre duro, e é meio galinha. Ele não tem a
menor vocação para príncipe encantado e ainda assim você não consegue despachá-lo.

Quando a mão dele toca na sua nuca, você derrete feito manteiga. Ele toca gaita na boca, adora animais e escreve poemas. Por que você ama
este cara?

Não pergunte pra mim; você é inteligente. Lê livros, revistas, jornais. Gosta dos filmes dos irmãos Coen e do Robert Altman, mas sabe que uma boa comédia romântica também tem seu valor.

É bonita. Seu cabelo nasceu para ser sacudido num comercial de xampu e seu corpo tem todas as curvas no lugar. Independente, emprego fixo, bom saldo no banco. Gosta de viajar, de música, tem loucura
por computador e seu fettucine ao pesto é imbatível.

Você tem bom humor, não pega no pé de ninguém e adora sexo. Com um currículo desse, criatura, por que está sem um amor?

Ah, o amor, essa raposa. Quem dera o amor não fosse um sentimento, mas uma equação matemática: eu linda + você inteligente = dois apaixonados.

Não funciona assim.

Amar não requer conhecimento prévio nem consulta ao SPC. Ama-se justamente pelo que o Amor tem de indefinível.

Honestos existem aos milhares, generosos têm às pencas, bons motoristas e bons pais de família, tá assim, ó!

Mas ninguém consegue ser do jeito que o amor da sua vida é! Pense nisso. Pedir é a maneira mais eficaz de merecer. É a contingência maior de quem precisa."



Arnaldo Jabor

segunda-feira, 23 de março de 2009

Trecho de Axelrod

de Hilda Hilst

Unir-se, Axelrod, unir-se a alguém, é disso que precisas. A quem? À História? Como se ela fosse alguém essa falada História, penugenta andando por aí, como se ela fosse real, olha aí a História, tá passando aí, olha pra ela, olha a História te engolindo, jantas hoje com a História, os filhinhos da História, Marat marx mao, o primeiro homicida, o segundo tantas coisas humanista sociólogo economista agitador, ó tão fundo esse segundo, tão História tão Estado. E que terceiro, ó gente, que terceiro.

já leu Marx?

maçante aquilo tudo

mas leu?

sim, o que pude conseguir, as cartas aos amigos dizem mais dele do que tudo

que límpido ordenado, que precisões hen? liberdade pra quê? liberdade têm os outros de te montar em cima, de te arrancarem o naco de carne da boca, tens medo de que te tirem o quê se não tens nada?

Marx meu amor, te amei tão História, Mao e Shu vocês também, que soerguido vital, que caminhadas que floração, que linguagem, e fui relendo, anotando, cintilantes esquemas, destrinchações, como se eu fosse jantar com a História logo mais, como se eu fosse meter com a História, as pernocas abertas da História, as coxonas cozidas de tão faladas, o vaginão da História, vermelhusco, baboso, e o meu fiapo magro nadando lá por dentrojá leu tudo, menino? já sabe tudo de mim, como me fiz, o que sou?

sim dona História

viu que gente de primeira já andou por aí?

sim dona História

e que sangueira hen filho? Que linguagens, que porte, que pompas

Vou entrando na História, endurecendo, vou morrendo explodindo em faíscas, a cavernosa vai me comendo, ímã gozoso, já não sou Axelrod Silva, sou nomes, fachadas, sou máscara, já não penso, pensam por mim, sou credo, sou catecismo, sou bandeira, sou acorde, sou principalmente Político, o peito teso empinado, tenho idéias mas já não sou Axelrod Silva, tudo o que quiserdes, menos eu, a História me chupa inteiro, a língua porejando sangue

goza filhinho

sim dona História, vou indo, estou cheio de idéias, tenho dúvidas, tenho gozos rápidos e agudos, vou te apalpando agora, o povo me olha, o povo quer muito de mim, gosto do povo, devo ser o povo, devo ser um único e harmônico povo-ovo, devo morrer pelo povo, adentrado nele, devo rugir e ser um só com o povo, Axelrod-povo, Axelrod-coesão, virulência, Axelrod-filho do povo, HISTÓRIA/POVO, janto com meus pais, sopa de proletariado, pãezinhos mencheviques, engulo o monopólio, emocionado bebo a revolução, lento vou digerindo o intelecto, mas estou faminto, estarei sempre faminto, cago capitalismo, o lucro, a bolsa de títulos, e ainda estou faminto, ô meu deus, eu me quero a mim, ossudo seco, eu.


(...)


(Axelrod in "Tu não te moves de ti" - SP: Cultura, 1980.)

~*~

Amo essa mulher!

sábado, 21 de março de 2009

Madrugada


Espera a vida fazer silêncio ou falar baixinho
Ao menos dá uma chance pra ela falar tua língua
Seguir teu ritmo
Entrar na tua
Talvez um dia ela pare e entenda que você só quis entendê-la
E se você abriu os braços foi pra abraçá-la
E que só cerrou os lábios, pra escutá-la

E quando ela estava aos gritos, aos prantos, aos tantos:

Se estendeu a mão, foi pra tocá-la...
Se falou baixinho, foi pra acalmá-la...
E se berrou tão alto, pra controlá-la...
Não se preocupe, um dia ela terá que entender que é sua...
Mesmo que hoje ela resista e te desafie
E te arranhe a carne
E verta teu sangue

Já viu a importância que ela dá as cores?

Aos tons...
Aos sons...
Às dores.

E se ela finalmente calar?
Já pensou?
Você diante do silencio da vida...
Da di-solução de tudo

Do rompimento.
~*~
Foto desfocada mermo!

20/03/09


"Te desejo uma fé enorme, em qualquer coisa, não importa o quê, como aquela fé que a gente teve um dia, me deseja também uma coisa bem bonita, uma coisa qualquer maravilhosa, que me faça acreditar em tudo de novo, que nos faça acreditar em tudo outra vez."
[C.F.A]

quarta-feira, 18 de março de 2009

Porque todos os seus dias podem ser encontrados em algum livro do Caio

"Frágil – você tem tanta vontade de chorar, tanta vontade de ir embora. Para que o protejam, para que sintam falta. Tanta vontade de viajar para bem longe, romper todos os laços, sem deixar endereço. Um dia mandará um cartão-postal de algum lugar improvável. Bali, Madagascar, Sumatra. Escreverá: penso em você. Deve ser bonito, mesmo melancólico, alguém que se foi pensar em você num lugar improvável como esse. Você se comove com o que não acontece, você sente frio e medo. Parado atrás da vidraça, olhando a chuva que, aos poucos começa a passar."

[C.F.A]

*Em breve minhas proprias fotografias... aí que emoção. *.*

terça-feira, 17 de março de 2009

João Cabral de Melo Neto

O amor comeu meu nome, minha identidade, meu retrato. O amor comeu minha certidão de idade, minha genealogia, meu endereço. O amor comeu meus cartões de visita. O amor veio e comeu todos os papéis onde eu escrevera meu nome.
O amor comeu minhas roupas, meus lenços, minhas camisas. O amor comeu metros e metros de gravatas. O amor comeu a medida de meus ternos, o número de meus sapatos, o tamanho de meus chapéus. O amor comeu minha altura, meu peso, a cor de meus olhos e de meus cabelos.
O amor comeu meus remédios, minhas receitas médicas, minhas dietas. Comeu minhas aspirinas, minhas ondas-curtas, meus raios-X. Comeu meus testes mentais, meus exames de urina.
O amor comeu na estante todos os meus livros de poesia. Comeu em meus livros de prosa as citações em verso. Comeu no dicionário as palavras que poderiam se juntar em versos.
Faminto, o amor devorou os utensílios de meu uso: pente, navalha, escovas, tesouras de unhas, canivete. Faminto ainda, o amor devorou o uso de meus utensílios: meus banhos frios, a ópera cantada no banheiro, o aquecedor de água de fogo morto mas que parecia uma usina.
O amor comeu as frutas postas sobre a mesa. Bebeu a água dos copos e das quartinhas. Comeu o pão de propósito escondido. Bebeu as lágrimas dos olhos que, ninguém o sabia, estavam cheios de água.
O amor voltou para comer os papéis onde irrefletidamente eu tornara a escrever meu nome.
O amor roeu minha infância, de dedos sujos de tinta, cabelo caindo nos olhos, botinas nunca engraxadas. O amor roeu o menino esquivo, sempre nos cantos, e que riscava os livros, mordia o lápis, andava na rua chutando pedras. Roeu as conversas, junto à bomba de gasolina do largo, com os primos que tudo sabiam sobre passarinhos, sobre uma mulher, sobre marcas de automóvel.
O amor comeu meu Estado e minha cidade. Drenou a água morta dos mangues, aboliu a maré. Comeu os mangues crespos e de folhas duras, comeu o verde ácido das plantas de cana cobrindo os morros regulares, cortados pelas barreiras vermelhas, pelo trenzinho preto, pelas chaminés. Comeu o cheiro de cana cortada e o cheiro de maresia. Comeu até essas coisas de que eu desesperava por não saber falar delas em verso.
O amor comeu até os dias ainda não anunciados nas folhinhas. Comeu os minutos de adiantamento de meu relógio, os anos que as linhas de minha mão asseguravam. Comeu o futuro grande atleta, o futuro grande poeta. Comeu as futuras viagens em volta da terra, as futuras estantes em volta da sala.
O amor comeu minha paz e minha guerra. Meu dia e minha noite. Meu inverno e meu verão. Comeu meu silêncio, minha dor de cabeça, meu medo da morte.

sábado, 14 de março de 2009

"A gente pode esquecer dos sonhos mas os sonhos não esquecem da gente."

"Talvez eu a ame. Talvez a ame muito. Mas é sem dúvida um motivo a mais para ficarmos nisso. Acho que um homem e uma mulher se amam mais quando não vivem juntos e quando sabem um do outro apenas uma coisa: que existem, e quando ficam gratos um ao outro porque existem e porque sabem que existem. E isso basta para que sejam felizes.”

[Milan kundera]

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Sufocada


Não consigo mais fazer o que nunca fiz...
Até tentar novamente, pensei que já tivesse feito
Mas nunca fiz...
Agora não consigo mais...
E esta aflição de não mais fazer o que pensara ter feito
Esta ânsia de repetir...
Mas como?
É tarde?
Sinto que já deveria ter feito há muito tempo...
Ao menos uma vez, uma única vez...
Uma vez única...
Mas há os momentos...
Neles até as minhas unhas sentem que já fiz.
Acredito nelas... Quem desconfiaria das suas próprias unhas?!
Quero dizer, são as SUAS unhas! Elas devem estar certas.
Mas não...
É tarde...
Na vida curta que desejo, sei que é tarde.
Dói pensar que, daqui pra frente, talvez eu nunca mais consiga...

As pessoas falam tanto das oportunidades perdidas...
E se, na curta vida que desejo ter, houve um momento...
Um momento decisivo, aqueles divisores...
Aquele antes dos dois caminhos a seguir...
Onde eu deveria ter feito... e não fiz.
E perdi! Perdi a bendita oportunidade de ter feito...
É provável...
Essa ideia é tão esmagadora.
Ninguém diz o que resta depois dela.

Mas sinto que fiz...
Chego a sentir saudade do que fiz...
Agora só resta esse medo...
Esse nó...
E a sensação de que, se não fiz, também não sou.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Vazio


Hoje vem a sensação de ter sentido intensamente algo que nunca existiu.
Agora, é necessário doses maciças de realidade.
Que terá como consequência a ausência de inspiração...
Só conheço a inspiração que provem da alegria ou da dor,
Este estado morno dos sentidos só faz nascer palavras vazias.
Por enquanto, melhor assim.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Sobre o amor

Amar você é descobrir que alguns mergulhos são desnecessários, que algumas coisas existem para se conhecer só na superfície, dispensando dicionários, porque elas são simplesmente aquela estrada rasa feita pra se caminhar por cima e a esmo. É eu saber teu colo e você a minha mão quente. É esse nosso afago relembrar a euforia das paixões adolescentes. É poder ouvir exatamente o que foi dito sem procurar uma mensagem oculta, uma palavra mágica dissolvida no contexto ou outros indícios. É respeitar tuas vontades, tua inconstância, tuas dificuldades. É saber que uma meia-verdade pode ser a verdade mais sincera de cada um...

Amar você é também mergulhar nos meus textos e ficar submersa observando as coisas por dentro porque a densidade delas é o essencial, é o meu centro. É entender tuas limitações porque me olho e vejo as minhas, é conceber minhas mudanças porque também vejo as tuas. É não deixar que nada corrompa nossas essências, porque nos queremos melhorar para o mundo, porque queremos embelezar nosso universo, porque queremos ser além das aparências. É saber que cada passo que dou será na direção que escolhi e que só terei o conforto da sua companhia se, por acaso, quiser seguir o mesmo rumo. Porque somos unos, múltiplos, imensos, nunca os mesmos, sempre os únicos, os mais intensos.

É encontrar leveza nas emoções que nos transbordaram porque estávamos prontos. É escrever um dicionário de palavras distraídas. E adentrar o corpo de um poema recente, ainda disforme. É falar de amor usando a metáfora mais inocente. É também experimentar a simplicidade com que tudo pode ser vivido, até àquela hora em que o desejo dorme. É vir à tona e, sem sustos, te deixar ser e me vir refletida, pedra bruta antes de ser polida, até a hora da próxima fome.

Amar você é amar aquilo que, de outra forma, jamais faria sentido: é abraçar teu passado, teus traumas, teus vazios, tuas confusões e angústias existenciais como quem abraça a um amigo.

É agradecer profundamente, ao acordar, por esta pessoa inteira, que jamais será uma metade e que me escolheu para a soma, e que com todas as alternativas que teve, preferiu seguir comigo.
(Amar você me fortalece.)

[Marla de Queiroz]

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009


"Um pouquinho de felicidade", ela diz.
"Aceito uma pitada de medo, até uma dose de perigo...
Mas, por favor, a felicidade tem que vir no capricho."

sábado, 10 de janeiro de 2009

domingo, 4 de janeiro de 2009

Sonetos que não são

Aflição de ser eu e não ser outra.
Aflição de não ser, amor, aquela
Que muitas filhas te deu, casou donzela
E à noite se prepara e se adivinha

Objeto de amor, atenta e bela.
Aflição de não ser a grande ilha
Que te retém e não te desespera.
(A noite como fera se avizinha.)

Aflição de ser água em meio à terra
E ter a face conturbada e móvel.
E a um só tempo múltipla e imóvel

Não saber se se ausenta ou se te espera.
Aflição de te amar, se te comove.
E sendo água, amor, querer ser terra.

Roteiro do Silêncio(1959)
[Hilda Hilst]