sábado, 21 de março de 2009

Madrugada


Espera a vida fazer silêncio ou falar baixinho
Ao menos dá uma chance pra ela falar tua língua
Seguir teu ritmo
Entrar na tua
Talvez um dia ela pare e entenda que você só quis entendê-la
E se você abriu os braços foi pra abraçá-la
E que só cerrou os lábios, pra escutá-la

E quando ela estava aos gritos, aos prantos, aos tantos:

Se estendeu a mão, foi pra tocá-la...
Se falou baixinho, foi pra acalmá-la...
E se berrou tão alto, pra controlá-la...
Não se preocupe, um dia ela terá que entender que é sua...
Mesmo que hoje ela resista e te desafie
E te arranhe a carne
E verta teu sangue

Já viu a importância que ela dá as cores?

Aos tons...
Aos sons...
Às dores.

E se ela finalmente calar?
Já pensou?
Você diante do silencio da vida...
Da di-solução de tudo

Do rompimento.
~*~
Foto desfocada mermo!

20/03/09


"Te desejo uma fé enorme, em qualquer coisa, não importa o quê, como aquela fé que a gente teve um dia, me deseja também uma coisa bem bonita, uma coisa qualquer maravilhosa, que me faça acreditar em tudo de novo, que nos faça acreditar em tudo outra vez."
[C.F.A]

quarta-feira, 18 de março de 2009

Porque todos os seus dias podem ser encontrados em algum livro do Caio

"Frágil – você tem tanta vontade de chorar, tanta vontade de ir embora. Para que o protejam, para que sintam falta. Tanta vontade de viajar para bem longe, romper todos os laços, sem deixar endereço. Um dia mandará um cartão-postal de algum lugar improvável. Bali, Madagascar, Sumatra. Escreverá: penso em você. Deve ser bonito, mesmo melancólico, alguém que se foi pensar em você num lugar improvável como esse. Você se comove com o que não acontece, você sente frio e medo. Parado atrás da vidraça, olhando a chuva que, aos poucos começa a passar."

[C.F.A]

*Em breve minhas proprias fotografias... aí que emoção. *.*

terça-feira, 17 de março de 2009

João Cabral de Melo Neto

O amor comeu meu nome, minha identidade, meu retrato. O amor comeu minha certidão de idade, minha genealogia, meu endereço. O amor comeu meus cartões de visita. O amor veio e comeu todos os papéis onde eu escrevera meu nome.
O amor comeu minhas roupas, meus lenços, minhas camisas. O amor comeu metros e metros de gravatas. O amor comeu a medida de meus ternos, o número de meus sapatos, o tamanho de meus chapéus. O amor comeu minha altura, meu peso, a cor de meus olhos e de meus cabelos.
O amor comeu meus remédios, minhas receitas médicas, minhas dietas. Comeu minhas aspirinas, minhas ondas-curtas, meus raios-X. Comeu meus testes mentais, meus exames de urina.
O amor comeu na estante todos os meus livros de poesia. Comeu em meus livros de prosa as citações em verso. Comeu no dicionário as palavras que poderiam se juntar em versos.
Faminto, o amor devorou os utensílios de meu uso: pente, navalha, escovas, tesouras de unhas, canivete. Faminto ainda, o amor devorou o uso de meus utensílios: meus banhos frios, a ópera cantada no banheiro, o aquecedor de água de fogo morto mas que parecia uma usina.
O amor comeu as frutas postas sobre a mesa. Bebeu a água dos copos e das quartinhas. Comeu o pão de propósito escondido. Bebeu as lágrimas dos olhos que, ninguém o sabia, estavam cheios de água.
O amor voltou para comer os papéis onde irrefletidamente eu tornara a escrever meu nome.
O amor roeu minha infância, de dedos sujos de tinta, cabelo caindo nos olhos, botinas nunca engraxadas. O amor roeu o menino esquivo, sempre nos cantos, e que riscava os livros, mordia o lápis, andava na rua chutando pedras. Roeu as conversas, junto à bomba de gasolina do largo, com os primos que tudo sabiam sobre passarinhos, sobre uma mulher, sobre marcas de automóvel.
O amor comeu meu Estado e minha cidade. Drenou a água morta dos mangues, aboliu a maré. Comeu os mangues crespos e de folhas duras, comeu o verde ácido das plantas de cana cobrindo os morros regulares, cortados pelas barreiras vermelhas, pelo trenzinho preto, pelas chaminés. Comeu o cheiro de cana cortada e o cheiro de maresia. Comeu até essas coisas de que eu desesperava por não saber falar delas em verso.
O amor comeu até os dias ainda não anunciados nas folhinhas. Comeu os minutos de adiantamento de meu relógio, os anos que as linhas de minha mão asseguravam. Comeu o futuro grande atleta, o futuro grande poeta. Comeu as futuras viagens em volta da terra, as futuras estantes em volta da sala.
O amor comeu minha paz e minha guerra. Meu dia e minha noite. Meu inverno e meu verão. Comeu meu silêncio, minha dor de cabeça, meu medo da morte.

sábado, 14 de março de 2009

"A gente pode esquecer dos sonhos mas os sonhos não esquecem da gente."

"Talvez eu a ame. Talvez a ame muito. Mas é sem dúvida um motivo a mais para ficarmos nisso. Acho que um homem e uma mulher se amam mais quando não vivem juntos e quando sabem um do outro apenas uma coisa: que existem, e quando ficam gratos um ao outro porque existem e porque sabem que existem. E isso basta para que sejam felizes.”

[Milan kundera]

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Sufocada


Não consigo mais fazer o que nunca fiz...
Até tentar novamente, pensei que já tivesse feito
Mas nunca fiz...
Agora não consigo mais...
E esta aflição de não mais fazer o que pensara ter feito
Esta ânsia de repetir...
Mas como?
É tarde?
Sinto que já deveria ter feito há muito tempo...
Ao menos uma vez, uma única vez...
Uma vez única...
Mas há os momentos...
Neles até as minhas unhas sentem que já fiz.
Acredito nelas... Quem desconfiaria das suas próprias unhas?!
Quero dizer, são as SUAS unhas! Elas devem estar certas.
Mas não...
É tarde...
Na vida curta que desejo, sei que é tarde.
Dói pensar que, daqui pra frente, talvez eu nunca mais consiga...

As pessoas falam tanto das oportunidades perdidas...
E se, na curta vida que desejo ter, houve um momento...
Um momento decisivo, aqueles divisores...
Aquele antes dos dois caminhos a seguir...
Onde eu deveria ter feito... e não fiz.
E perdi! Perdi a bendita oportunidade de ter feito...
É provável...
Essa ideia é tão esmagadora.
Ninguém diz o que resta depois dela.

Mas sinto que fiz...
Chego a sentir saudade do que fiz...
Agora só resta esse medo...
Esse nó...
E a sensação de que, se não fiz, também não sou.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Vazio


Hoje vem a sensação de ter sentido intensamente algo que nunca existiu.
Agora, é necessário doses maciças de realidade.
Que terá como consequência a ausência de inspiração...
Só conheço a inspiração que provem da alegria ou da dor,
Este estado morno dos sentidos só faz nascer palavras vazias.
Por enquanto, melhor assim.