segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

A Genialidade da Multidão

Há bastante deslealdade, ódio, violência,
absurdo no ser humano comum
para suprir qualquer exército em qualquer dia.
E o melhor no assassinato
são aqueles que pregam contra ele.
E o melhor no ódio
são aqueles que pregam amor e o melhor na guerra -finalmente-
são aqueles que pregam a paz
aqueles que pregam deus precisam de deus
aqueles que pregam paz não têm paz.
Aqueles que pregam amor não têm amor
cuidado com os pregadores
cuidado com os sabedores.
Cuidado com aqueles que estão sempre lendo livros
cuidado com aqueles que detestam pobreza
ou que são orgulhosos dela
cuidado com aqueles que elogiam fácil
porque eles precisam de elogios de volta
cuidado com aqueles que censuram fácil:
eles têm medo daquilo que não conhecem
cuidado com aqueles que procuram constantes multidões;
eles não são nada sozinhos
cuidado com o homem comum
com a mulher comum
cuidado com o amor deles
o amor deles é comum,
procura o comum
mas há genialidade
em seu ódio
há bastante genialidade
para matar você, para matar qualquer um.
Sem esperar solidão
sem entender solidão
eles tentarão destruir qualquer coisa
que seja diferente deles mesmos
incapazes de criar arte
eles não irão compreender arte
eles vão considerar sua falha como criadores
apenas como uma falha do mundo
incapazes de amar completamente
eles vão acreditar que seu amor
é incompleto
e eles vão odiar você
e seu ódio será perfeito
como um diamante brilhante
como uma faca
como uma montanha
como um tigre
como cicuta
sua mais fina arte

[Charles Bukowski]

sábado, 13 de dezembro de 2008

Escuta, Zé Ninguém!

És o "homem médio", o "homem comum". Repara bem no significado destas palavras: "médio" e "comum".

Não fujas. Tem ânimo e contempla-te. "Que direito tem este tipo de dizer-me o que quer que seja?" Leio esta pergunta nos teus olhos-amedrontados. Ouço-a na sua impertinência, Zé Ninguém. Tens medo de olhar para ti próprio, tens medo da crítica, tal como tens medo do poder que te prometem e que não saberias usar. Nem te atreves a pensar que poderias ser diferente: livre em vez de deprimido, direto em vez de cauteloso, amando às claras e não mais como um ladrão na noite. Tu mesmo te desprezas, Zé Ninguém, Dizes: "Quem sou eu para ter opinião própria, para decidir da minha própria vida e ter o mundo por meu?" E tens razão: Quem és tu para reclamar direitos sobre a tua vida? Deixa-me dizer-te.
Diferes dos grandes homens que verdadeiramente o são apenas num ponto: todo o grande homem foi outrora um Zé Ninguém que desenvolveu apenas uma outra qualidade: a de reconhecer as áreas em que havia limitações e estreiteza no seu modo de pensar e agir. Através de qualquer tarefa que o apaixonasse, aprendeu a sentir cada vez melhor aquilo em que a sua pequenez e mediocridade ameaçavam a sua felicidade. O grande homem é, pois, aquele que reconhece quando e em que é pequeno. O homem pequeno é aquele que não reconhece a sua pequenez e teme reconhecê-la; que procura mascarar a sua tacanhez e estreiteza de vistas com ilusões de força e grandeza, força e grandeza alheias. Que se orgulha dos seus grandes generais, mas não de si próprio. Que admira as idéias que não teve, mas nunca as que teve. Que acredita mais

arraigadamente nas coisas que menos entende, e que não acredita no que quer que lhe pareça fácil de assimilar.


Wilhelm Reich
~*~
Agora são 01:43 da madrugada e não consigo parar de ler esse livro...
Por hora é só isso.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

UMA REVOLTA

Quando o amor é grande demais torna-se inútil: já não é mais aplicável, e nem a pessoa amada tem a capacidade de receber tanto. Fico perplexa como uma criança ao notar que mesmo no amor tem-se que ter bom senso e senso de medida. Ah, a vida dos sentimentos é extremamente burguesa.

[Clarice Lispector.]
~*~

A cada dia viver me esmaga com mais força

"...se você tivesse telefonado hoje eu ia dizer tanta, mas tanta coisa. Talvez mesmo conseguisse dizer tudo aquilo que escondo desde o começo, um pouco por timidez, por vergonha, por falta de oportunidade, mas principalmente porque todos me dizem que sou demais precipitado, que coloco em palavras todo o meu processo mental (processo mental: é exatamente assim que eles dizem, e eu acho engraçado) e que isso assusta as pessoas, e que é preciso disfarçar, jogar, esconder, mentir. Eu não achei que ia conseguir dizer, quero dizer, dizer tudo aquilo que escondo desde a primeira vez que vi você, não me lembro quando, não me lembro onde. Hoje havia calma, entende? Eu acho que as coisas que ficam fora da gente, essas coisas como o tempo e o lugar, essas coisas influem muito no que a gente vai dizer, entende? Pois por fora, hoje, havia chuva e um pouco de frio: essa chuva e esse frio parecem que empurram a gente mais pra dentro da gente mesmo, então as pessoas ficam mais lentas, mais verdadeiras, mais bonitas. Hoje eu estava assim: mais lento, mais verdadeiro, mais bonito até. Hoje eu diria qualquer coisa se você telefonasse. Por dentro também eu estava preparado para dizer, um pouco porque eu não agüento mais ficar esperando toda hora você telefonar ou aparecer, e quando você telefona ou aparece com aquelas maçãs eu preciso me cuidar para não assustar você e quando você me pergunta como estou, mordo devagar uma das maçãs que você me traz e cuido meus olhos para não me traírem e não te assustarem e não ficarem querendo entrar demais dentro dos teus olhos, então eu cuido devagar tudo o que digo e todo movimento, porque eu quero que você venha outras vezes (...) A cada dia viver me esmaga com mais força."

[Caio Fernando Abreu, Carta para Além do Muro.]
~*~
Às vezes, ela só quer esquecer tudo... Ou simplesmente não sentir o que lembra... Ou talvez implorar... Mas nada acontece.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

Cambaio

~*~
Eu quero moça que me deixe perdido
Procuro moça que me deixe pasmado
Essa moça zoando na minha idéia
Eu quero moça que me deixe zarolho
Procuro moça que me deixe cambaio
Me fervendo na veia

Desejo a moça prestes
A transformar-se em flor
A se tornar um luxo
Pro seu novo amor
Moça que vira bicho
Que é de fechar bordel
Que ateia fogo às vestes
Na lua-de-mel

Eu quero moça que me deixe maluco
Moça disposta a me deixar no bagaço
Essa moça zanzando na minha raia
Eu quero moça que me chame na chincha
Com sua flecha que crave um buraco
Na cabeça e não saia

Vejo fulana a festejar na revista
Vejo beltrana a bordejar no pedaço
Divinais garotas
Belas donzelas no salão de beleza
altas gazelas nos jardins do palácio
Eu sou mais as putas
~*~
Judith and the Head of Holofernes, Gustav Klimt
~*~
Por algum motivo que não sei explicar, paro o dia com um meio sorriso quando essa música toca no rádio, geralmente estou sentada dentro do ônibus. Sempre tive vontade de juntar ela em algum lugar com esse quadro do Klimt (talvez uma livre-associação-sem-sentido...). O por quê? O olhar da Judith de Klimt diz tudo...
Ah...Os olhares das mulheres de Klimt... Poder & Perigo... Como uma "aspirante" a Lilith que sou, não posso deixar de ficar fascinada com eles.
Ainda lamento ser tão Teresa (ler ' A insustentável leveza do ser'), mas do jeito que andam as coisas ainda me torno uma Sabina. O bom é ser uma pouco das duas.
Acredito, ao ver essa tela, que Klimt viu mais que uma história bíblica... Talvez eu também esteja vendo mais do que ele quis passar, mas não sou especialista em obras de arte.
Aqui, me reservo ao direito de escrever a merda que eu quiser.
P.s.: Raios... Que mistura obliqua é essa... Preciso ser mais linear.

domingo, 7 de dezembro de 2008

Passional

“Sou o que se chama de pessoa impulsiva. Como descrever? Acho que assim: vem-me uma idéia ou um sentimento e eu, em vez de refletir sobre o que me veio, ajo quase que imediatamente. O resultado tem sido meio a meio: às vezes acontece que agi sob uma intuição dessas que não falham, às vezes erro completamente, o que prova que não se tratava de intuição, mas de simples infantilidade.Trata-se de saber se devo prosseguir nos meus impulsos. E até que ponto posso controlá-los. [...] Deverei continuar a acertar e a errar, aceitando os resultados resignadamente? Ou devo lutar e tornar-me uma pessoa mais adulta? E também tenho medo de tornar-me adulta demais: eu perderia um dos prazeres do que é um jogo infantil, do que tantas vezes é uma alegria pura. Vou pensar no assunto. E certamente o resultado ainda virá sob a forma de um impulso. Não sou madura bastante ainda. Ou nunca serei.”

[Clarice Lispector]

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Os sobreviventes

"[...] Ando angustiada demais, meu amigo, palavrinha antiga essa, angústia, duas décadas de convívio cotidiano, mas ando, ando, tenho uma coisa apertada aqui no meu peito, um sufoco, uma sede, um peso, não me venha com essas histórias de atraiçoamos-todos-os-nossos-ideais, nunca tive porra de ideal nenhum, só queria era salvar a minha, veja só que coisa mais individualista elitista, capitalista, só queria ser feliz, burra, gorda, alienada e completamente feliz, cara."

[C. F. Abreu, in Morangos Mofados]

Puta que pariu! [precisava soltar essa...]
Depois de procurar sofregamente esse livro em toda parte, o encontro hoje numa biblioteca municipal empoeirada que não vou a exatamente um ano e o primeiro trecho sublinhado que encontro é este acima. O conto todo é o que os intelectuais definiriam como FODA! Cada dia amo mais esse cara.
Oh! Minha santa Hilda Hilst daí-me o DOM!

P.s.: Parabéns pra mim, uma fodida a vinte primaveras.