domingo, 7 de dezembro de 2008

Passional

“Sou o que se chama de pessoa impulsiva. Como descrever? Acho que assim: vem-me uma idéia ou um sentimento e eu, em vez de refletir sobre o que me veio, ajo quase que imediatamente. O resultado tem sido meio a meio: às vezes acontece que agi sob uma intuição dessas que não falham, às vezes erro completamente, o que prova que não se tratava de intuição, mas de simples infantilidade.Trata-se de saber se devo prosseguir nos meus impulsos. E até que ponto posso controlá-los. [...] Deverei continuar a acertar e a errar, aceitando os resultados resignadamente? Ou devo lutar e tornar-me uma pessoa mais adulta? E também tenho medo de tornar-me adulta demais: eu perderia um dos prazeres do que é um jogo infantil, do que tantas vezes é uma alegria pura. Vou pensar no assunto. E certamente o resultado ainda virá sob a forma de um impulso. Não sou madura bastante ainda. Ou nunca serei.”

[Clarice Lispector]

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Os sobreviventes

"[...] Ando angustiada demais, meu amigo, palavrinha antiga essa, angústia, duas décadas de convívio cotidiano, mas ando, ando, tenho uma coisa apertada aqui no meu peito, um sufoco, uma sede, um peso, não me venha com essas histórias de atraiçoamos-todos-os-nossos-ideais, nunca tive porra de ideal nenhum, só queria era salvar a minha, veja só que coisa mais individualista elitista, capitalista, só queria ser feliz, burra, gorda, alienada e completamente feliz, cara."

[C. F. Abreu, in Morangos Mofados]

Puta que pariu! [precisava soltar essa...]
Depois de procurar sofregamente esse livro em toda parte, o encontro hoje numa biblioteca municipal empoeirada que não vou a exatamente um ano e o primeiro trecho sublinhado que encontro é este acima. O conto todo é o que os intelectuais definiriam como FODA! Cada dia amo mais esse cara.
Oh! Minha santa Hilda Hilst daí-me o DOM!

P.s.: Parabéns pra mim, uma fodida a vinte primaveras.

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Eles...

"Eu quis tanto ser a tua paz, quis tanto que você fosse o meu encontro. Quis tanto dar, tanto receber. Quis precisar, sem exigências. E sem solicitações, aceitar o que me era dado. Sem ir além, compreende? Não queria pedir mais do que você tinha, assim como eu não daria mais do que dispunha, por limitação humana. Mas o que tinha, era seu. "
[C.F. Abreu]
***

"[...] No entanto, o que terminei sendo, e tão cedo? Terminei sendo uma pessoa que procura o que profundamente se sente e usa a palavra que o exprima.É pouco, é muito pouco.”

[Clarice Lispector]

sábado, 22 de novembro de 2008

Roy...


Engole esse choro!

Das Vantagens de Ser Bobo

"Ser bobo às vezes oferece um mundo de saída porque os espertos só se lembram de sair por meio da esperteza, e o bobo tem originalidade, espontaneamente lhe vem a idéia. O bobo tem oportunidade de ver coisas que os espertos não vêem. Os espertos estão sempre tão atentos às espertezas alheias que se descontraem diante dos bobos, e estes os vêem como simples pessoas humanas. (...) Bobo não reclama. Em compensação como exclama! Os bobos, com todas as suas palhaçadas, devem estar no céu. Se Cristo tivesse sido esperto não teria morrido na cruz. O bobo é sempre tão simpático que há espertos que se fazem passar por bobos. Ser bobo é uma criatividade e, como toda criação, é difícil. Por isso é que os espertos não conseguem passar por bobos. Os espertos ganham dos outros. Em compensação os bobos ganham a vida. (...) É quase impossível evitar excesso de amor que o bobo provoca. É que só o bobo é capaz de excesso de amor. E só o amor faz o bobo."

[Clarice Lispector]

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Café e maçãs

Café e maçãs na tarde de Junho.
Num morno recanto civilizado
meus sentidos abarcam uma situação ligeiramente abstrada.
O mundo se tornou hospitaleiro,
como uma trégua no meio da história.
As maçãs emitem um resplendor amarelo,
o café oferece sua fumaça íntima.
Para meu fracasso de indivíduo contemporâneo
tudo isso parece o suficiente,
o frio interno das maçãs,
o calor instável do café,
dois motivos da natureza que fogem do meu controle.
Assim que estou com o traseiro esparramado
num aposento apropriado para minha classe social.
Zelando pelas coisas suaves
fecham-se as portas para o tumulto geral.
Porém às vezes estoura uma bomba no andar de baixo
e a polícia corre para saber quem é quem neste mundo.

[Joaquín O Gianuzzi]

Tradução de Renato Rezende

E não posso acrescentar mais nada a isso...