quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Sufocada


Não consigo mais fazer o que nunca fiz...
Até tentar novamente, pensei que já tivesse feito
Mas nunca fiz...
Agora não consigo mais...
E esta aflição de não mais fazer o que pensara ter feito
Esta ânsia de repetir...
Mas como?
É tarde?
Sinto que já deveria ter feito há muito tempo...
Ao menos uma vez, uma única vez...
Uma vez única...
Mas há os momentos...
Neles até as minhas unhas sentem que já fiz.
Acredito nelas... Quem desconfiaria das suas próprias unhas?!
Quero dizer, são as SUAS unhas! Elas devem estar certas.
Mas não...
É tarde...
Na vida curta que desejo, sei que é tarde.
Dói pensar que, daqui pra frente, talvez eu nunca mais consiga...

As pessoas falam tanto das oportunidades perdidas...
E se, na curta vida que desejo ter, houve um momento...
Um momento decisivo, aqueles divisores...
Aquele antes dos dois caminhos a seguir...
Onde eu deveria ter feito... e não fiz.
E perdi! Perdi a bendita oportunidade de ter feito...
É provável...
Essa ideia é tão esmagadora.
Ninguém diz o que resta depois dela.

Mas sinto que fiz...
Chego a sentir saudade do que fiz...
Agora só resta esse medo...
Esse nó...
E a sensação de que, se não fiz, também não sou.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Vazio


Hoje vem a sensação de ter sentido intensamente algo que nunca existiu.
Agora, é necessário doses maciças de realidade.
Que terá como consequência a ausência de inspiração...
Só conheço a inspiração que provem da alegria ou da dor,
Este estado morno dos sentidos só faz nascer palavras vazias.
Por enquanto, melhor assim.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Sobre o amor

Amar você é descobrir que alguns mergulhos são desnecessários, que algumas coisas existem para se conhecer só na superfície, dispensando dicionários, porque elas são simplesmente aquela estrada rasa feita pra se caminhar por cima e a esmo. É eu saber teu colo e você a minha mão quente. É esse nosso afago relembrar a euforia das paixões adolescentes. É poder ouvir exatamente o que foi dito sem procurar uma mensagem oculta, uma palavra mágica dissolvida no contexto ou outros indícios. É respeitar tuas vontades, tua inconstância, tuas dificuldades. É saber que uma meia-verdade pode ser a verdade mais sincera de cada um...

Amar você é também mergulhar nos meus textos e ficar submersa observando as coisas por dentro porque a densidade delas é o essencial, é o meu centro. É entender tuas limitações porque me olho e vejo as minhas, é conceber minhas mudanças porque também vejo as tuas. É não deixar que nada corrompa nossas essências, porque nos queremos melhorar para o mundo, porque queremos embelezar nosso universo, porque queremos ser além das aparências. É saber que cada passo que dou será na direção que escolhi e que só terei o conforto da sua companhia se, por acaso, quiser seguir o mesmo rumo. Porque somos unos, múltiplos, imensos, nunca os mesmos, sempre os únicos, os mais intensos.

É encontrar leveza nas emoções que nos transbordaram porque estávamos prontos. É escrever um dicionário de palavras distraídas. E adentrar o corpo de um poema recente, ainda disforme. É falar de amor usando a metáfora mais inocente. É também experimentar a simplicidade com que tudo pode ser vivido, até àquela hora em que o desejo dorme. É vir à tona e, sem sustos, te deixar ser e me vir refletida, pedra bruta antes de ser polida, até a hora da próxima fome.

Amar você é amar aquilo que, de outra forma, jamais faria sentido: é abraçar teu passado, teus traumas, teus vazios, tuas confusões e angústias existenciais como quem abraça a um amigo.

É agradecer profundamente, ao acordar, por esta pessoa inteira, que jamais será uma metade e que me escolheu para a soma, e que com todas as alternativas que teve, preferiu seguir comigo.
(Amar você me fortalece.)

[Marla de Queiroz]

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009


"Um pouquinho de felicidade", ela diz.
"Aceito uma pitada de medo, até uma dose de perigo...
Mas, por favor, a felicidade tem que vir no capricho."

sábado, 10 de janeiro de 2009

domingo, 4 de janeiro de 2009

Sonetos que não são

Aflição de ser eu e não ser outra.
Aflição de não ser, amor, aquela
Que muitas filhas te deu, casou donzela
E à noite se prepara e se adivinha

Objeto de amor, atenta e bela.
Aflição de não ser a grande ilha
Que te retém e não te desespera.
(A noite como fera se avizinha.)

Aflição de ser água em meio à terra
E ter a face conturbada e móvel.
E a um só tempo múltipla e imóvel

Não saber se se ausenta ou se te espera.
Aflição de te amar, se te comove.
E sendo água, amor, querer ser terra.

Roteiro do Silêncio(1959)
[Hilda Hilst]

terça-feira, 30 de dezembro de 2008

As noites

"Que pergunta devo fazer a esta noite?
Ela está tão linda que...
Bem... Acho que posso perguntar qualquer coisa."

[Num 23 de Dezembro de 2008 qualquer...]


Depois de tudo? Acho que ela sentia um nó na garganta toda vez que pensava nele...
Também tenho quase certeza de que sentia, na maioria das vezes, vontade de chorar. Lembro que, depois de certo tempo, ela prometeu a si mesma que nunca mais o faria. Algo relacionado com ele não merecer mais suas lágrimas. Uma dessas ideias idiotas que as mulheres utilizam para se convencerem que são fortes. O fato é que desde então ela realmente não mais chorou, acredito...

E tinha também os momentos que ela tentava entender... Inúteis, claro. Até tentei convencê-la a não perder tempo com isso, mas o fato é que ela nunca me ouvia... Algo relacionado a instintos e impulsividade... Babaquices humanas... Quem sou eu, pra questionar essa necessidade tola de sentir.

Mas confesso... Vinham-me arroubos homicidas toda vez que ela tentava entender. Dizia pra ela: “Agora? Do que adianta?! Você já fez a porra da burrada! Lembra que tentei te avisar e você dizia: ‘Desculpa, mas agora não é pra te ouvir, eu preciso seguir o outro, afinal é ele mesmo que sofrerá as consequências. ’” ... Como se fosse isso mesmo, ela sabia que no fim das contas o outro se escondia assustado e ficávamos nós dois, eu e ela, todas as noites, tentando entender. Sim, porque nesses momentos a fudida recorria a mim, claro! E sempre iniciava com aquela maldita frase inútil: “É... você estava certo...”

Às vezes eu realmente sentia pena dela. O olhar triste e perdido, um grito contido que sempre esbarrava nos lábios cerrados de medo... Medo de mostrar sua dor, se os outros realmente vissem o que ela sentia, tudo ficaria assustadoramente real... Acho que isso explica o nó na garganta que falei anteriormente.

E era sempre assim... Era como um treino, uma aprendizagem. Foi o que pensei. Tentei fazê-la pensar da mesma forma, me parecia a única explicação cabível. Tudo bem que com ela acontecia com muita frequência, quase sempre da mesma maneira e dessa vez foi a mais difícil... Até eu acreditei dessa vez...
E era dessa forma que ela argumentava e eu dizia: “Claro! Você sempre lenta em tudo, quando os outros vinham voltando, você ainda nem havia entendido que tinha que ir...” Touché!


Ela dizia: “É... isso é verdade...”
E riamos muito.

De repente ela parava... Aquele olhar... Parecia a pessoa mais triste do mundo, mas o que eu sei sobre tristeza...

Ela dizia: “Não... por favor, não quero mais ter esperanças. Cansei de acreditar. E convenhamos, não era pra você, logo você, me dá esperança. Você está tão cansado quanto eu.” Era verdade... Estávamos cansados, muito cansados.

Mas aquela tristeza no olhar dela sinceramente me incomodava. Geralmente quando esse olhar surgia nas nossas conversas eu lembrava daquela poetisa que ela gostava, recitava algo pra ela... Eu pessoalmente achava tudo aquilo uma besteira, nunca fui capaz de entender um poema. Mas ela... Ah... Ela sorria... Eu nunca entendi a beleza daquele sorriso... Era como se as duas se entendessem, era um riso cúmplice, era quase uma experiência mística...
O que raios estou dizendo?! Era só uma garota extremamente passional ouvindo poesia e eis que questiono: há tiros mais passionais que os dos versos e rimas?

E ela me respondia com aquele sorriso lindo: “Você realmente nunca irá entender, mas obrigada.”

E dormia.

[♪♪ ouvindo Lady Day ♪♪]