sexta-feira, 23 de janeiro de 2009
Sobre o amor
Amar você é também mergulhar nos meus textos e ficar submersa observando as coisas por dentro porque a densidade delas é o essencial, é o meu centro. É entender tuas limitações porque me olho e vejo as minhas, é conceber minhas mudanças porque também vejo as tuas. É não deixar que nada corrompa nossas essências, porque nos queremos melhorar para o mundo, porque queremos embelezar nosso universo, porque queremos ser além das aparências. É saber que cada passo que dou será na direção que escolhi e que só terei o conforto da sua companhia se, por acaso, quiser seguir o mesmo rumo. Porque somos unos, múltiplos, imensos, nunca os mesmos, sempre os únicos, os mais intensos.
É encontrar leveza nas emoções que nos transbordaram porque estávamos prontos. É escrever um dicionário de palavras distraídas. E adentrar o corpo de um poema recente, ainda disforme. É falar de amor usando a metáfora mais inocente. É também experimentar a simplicidade com que tudo pode ser vivido, até àquela hora em que o desejo dorme. É vir à tona e, sem sustos, te deixar ser e me vir refletida, pedra bruta antes de ser polida, até a hora da próxima fome.
Amar você é amar aquilo que, de outra forma, jamais faria sentido: é abraçar teu passado, teus traumas, teus vazios, tuas confusões e angústias existenciais como quem abraça a um amigo.
É agradecer profundamente, ao acordar, por esta pessoa inteira, que jamais será uma metade e que me escolheu para a soma, e que com todas as alternativas que teve, preferiu seguir comigo.
(Amar você me fortalece.)
[Marla de Queiroz]
quinta-feira, 15 de janeiro de 2009
domingo, 4 de janeiro de 2009
Sonetos que não são
Aflição de não ser, amor, aquela
Que muitas filhas te deu, casou donzela
E à noite se prepara e se adivinha
Objeto de amor, atenta e bela.
Aflição de não ser a grande ilha
Que te retém e não te desespera.
(A noite como fera se avizinha.)
Aflição de ser água em meio à terra
E ter a face conturbada e móvel.
E a um só tempo múltipla e imóvel
Não saber se se ausenta ou se te espera.
Aflição de te amar, se te comove.
E sendo água, amor, querer ser terra.
Roteiro do Silêncio(1959)
[Hilda Hilst]
terça-feira, 30 de dezembro de 2008
As noites
Ela está tão linda que...
Bem... Acho que posso perguntar qualquer coisa."
[Num 23 de Dezembro de 2008 qualquer...]

Depois de tudo? Acho que ela sentia um nó na garganta toda vez que pensava nele...
Também tenho quase certeza de que sentia, na maioria das vezes, vontade de chorar. Lembro que, depois de certo tempo, ela prometeu a si mesma que nunca mais o faria. Algo relacionado com ele não merecer mais suas lágrimas. Uma dessas ideias idiotas que as mulheres utilizam para se convencerem que são fortes. O fato é que desde então ela realmente não mais chorou, acredito...
E tinha também os momentos que ela tentava entender... Inúteis, claro. Até tentei convencê-la a não perder tempo com isso, mas o fato é que ela nunca me ouvia... Algo relacionado a instintos e impulsividade... Babaquices humanas... Quem sou eu, pra questionar essa necessidade tola de sentir.
Mas confesso... Vinham-me arroubos homicidas toda vez que ela tentava entender. Dizia pra ela: “Agora? Do que adianta?! Você já fez a porra da burrada! Lembra que tentei te avisar e você dizia: ‘Desculpa, mas agora não é pra te ouvir, eu preciso seguir o outro, afinal é ele mesmo que sofrerá as consequências. ’” Rá rá rá... Como se fosse isso mesmo, ela sabia que no fim das contas o outro se escondia assustado e ficávamos nós dois, eu e ela, todas as noites, tentando entender. Sim, porque nesses momentos a fudida recorria a mim, claro! E sempre iniciava com aquela maldita frase inútil: “É... você estava certo...”
Às vezes eu realmente sentia pena dela. O olhar triste e perdido, um grito contido que sempre esbarrava nos lábios cerrados de medo... Medo de mostrar sua dor, se os outros realmente vissem o que ela sentia, tudo ficaria assustadoramente real... Acho que isso explica o nó na garganta que falei anteriormente.
E era sempre assim... Era como um treino, uma aprendizagem. Foi o que pensei. Tentei fazê-la pensar da mesma forma, me parecia a única explicação cabível. Tudo bem que com ela acontecia com muita frequência, quase sempre da mesma maneira e dessa vez foi a mais difícil... Até eu acreditei dessa vez...
E era dessa forma que ela argumentava e eu dizia: “Claro! Você sempre lenta em tudo, quando os outros vinham voltando, você ainda nem havia entendido que tinha que ir...” Touché!
Ela dizia: “É... isso é verdade...”
E riamos muito.
De repente ela parava... Aquele olhar... Parecia a pessoa mais triste do mundo, mas o que eu sei sobre tristeza...
Ela dizia: “Não... por favor, não quero mais ter esperanças. Cansei de acreditar. E convenhamos, não era pra você, logo você, me dá esperança. Você está tão cansado quanto eu.” Era verdade... Estávamos cansados, muito cansados.
Mas aquela tristeza no olhar dela sinceramente me incomodava. Geralmente quando esse olhar surgia nas nossas conversas eu lembrava daquela poetisa que ela gostava, recitava algo pra ela... Eu pessoalmente achava tudo aquilo uma besteira, nunca fui capaz de entender um poema. Mas ela... Ah... Ela sorria... Eu nunca entendi a beleza daquele sorriso... Era como se as duas se entendessem, era um riso cúmplice, era quase uma experiência mística...
O que raios estou dizendo?! Era só uma garota extremamente passional ouvindo poesia e eis que questiono: há tiros mais passionais que os dos versos e rimas?
E ela me respondia com aquele sorriso lindo: “Você realmente nunca irá entender, mas obrigada.”
E dormia.
[♪♪ ouvindo Lady Day ♪♪]
Hilda Hilst [sempre]
A sombra, o sonho, o labirinto, o caos
A vertigem de ser, a asa, o grito.
Que mitos, meu amor, entre os lençóis:
O que tu pensas gozo é tão finito
E o que pensas amor é muito mais.
Como cobrir-te de pássaros e plumas
E ao mesmo tempo te dizer adeus
Porque imperfeito és carne e perecível
E o que eu desejo é luz e imaterial.
Que canto há de cantar o indefinível?
O toque sem tocar, o olhar sem ver
A alma, amor, entrelaçada dos indescritíveis.
Como te amar, sem nunca merecer?
(Da Noite - 1992)
sábado, 27 de dezembro de 2008
É Proibido
Levantar-se um dia sem saber o que fazer
Ter medo de suas lembranças.
É proibido não rir dos problemas
Não lutar pelo que se quer,
Abandonar tudo por medo,
Não transformar sonhos em realidade.
É proibido não demonstrar amor
Fazer com que alguém pague por tuas dúvidas e mau-humor.
É proibido deixar os amigos
Não tentar compreender o que viveram juntos
Chamá-los somente quando necessita deles.
É proibido não ser você mesmo diante das pessoas,
Fingir que elas não te importam,
Ser gentil só para que se lembrem de você,
Esquecer aqueles que gostam de você.
É proibido não fazer as coisas por si mesmo,
Não crer em Deus e fazer seu destino,
Ter medo da vida e de seus compromissos,
Não viver cada dia como se fosse um último suspiro.
É proibido sentir saudades de alguém sem se alegrar,
Esquecer seus olhos, seu sorriso, só porque seus caminhos se
desencontraram,
Esquecer seu passado e pagá-lo com seu presente.
É proibido não tentar compreender as pessoas,
Pensar que as vidas deles valem mais que a sua,
Não saber que cada um tem seu caminho e sua sorte.
É proibido não criar sua história,
Deixar de dar graças a Deus por sua vida,
Não ter um momento para quem necessita de você,
Não compreender que o que a vida te dá, também te tira.
É proibido não buscar a felicidade,
Não viver sua vida com uma atitude positiva,
Não pensar que podemos ser melhores,
Não sentir que sem você este mundo não seria igual.
[Pablo Neruda]

