sábado, 10 de janeiro de 2009

domingo, 4 de janeiro de 2009

Sonetos que não são

Aflição de ser eu e não ser outra.
Aflição de não ser, amor, aquela
Que muitas filhas te deu, casou donzela
E à noite se prepara e se adivinha

Objeto de amor, atenta e bela.
Aflição de não ser a grande ilha
Que te retém e não te desespera.
(A noite como fera se avizinha.)

Aflição de ser água em meio à terra
E ter a face conturbada e móvel.
E a um só tempo múltipla e imóvel

Não saber se se ausenta ou se te espera.
Aflição de te amar, se te comove.
E sendo água, amor, querer ser terra.

Roteiro do Silêncio(1959)
[Hilda Hilst]

terça-feira, 30 de dezembro de 2008

As noites

"Que pergunta devo fazer a esta noite?
Ela está tão linda que...
Bem... Acho que posso perguntar qualquer coisa."

[Num 23 de Dezembro de 2008 qualquer...]


Depois de tudo? Acho que ela sentia um nó na garganta toda vez que pensava nele...
Também tenho quase certeza de que sentia, na maioria das vezes, vontade de chorar. Lembro que, depois de certo tempo, ela prometeu a si mesma que nunca mais o faria. Algo relacionado com ele não merecer mais suas lágrimas. Uma dessas ideias idiotas que as mulheres utilizam para se convencerem que são fortes. O fato é que desde então ela realmente não mais chorou, acredito...

E tinha também os momentos que ela tentava entender... Inúteis, claro. Até tentei convencê-la a não perder tempo com isso, mas o fato é que ela nunca me ouvia... Algo relacionado a instintos e impulsividade... Babaquices humanas... Quem sou eu, pra questionar essa necessidade tola de sentir.

Mas confesso... Vinham-me arroubos homicidas toda vez que ela tentava entender. Dizia pra ela: “Agora? Do que adianta?! Você já fez a porra da burrada! Lembra que tentei te avisar e você dizia: ‘Desculpa, mas agora não é pra te ouvir, eu preciso seguir o outro, afinal é ele mesmo que sofrerá as consequências. ’” ... Como se fosse isso mesmo, ela sabia que no fim das contas o outro se escondia assustado e ficávamos nós dois, eu e ela, todas as noites, tentando entender. Sim, porque nesses momentos a fudida recorria a mim, claro! E sempre iniciava com aquela maldita frase inútil: “É... você estava certo...”

Às vezes eu realmente sentia pena dela. O olhar triste e perdido, um grito contido que sempre esbarrava nos lábios cerrados de medo... Medo de mostrar sua dor, se os outros realmente vissem o que ela sentia, tudo ficaria assustadoramente real... Acho que isso explica o nó na garganta que falei anteriormente.

E era sempre assim... Era como um treino, uma aprendizagem. Foi o que pensei. Tentei fazê-la pensar da mesma forma, me parecia a única explicação cabível. Tudo bem que com ela acontecia com muita frequência, quase sempre da mesma maneira e dessa vez foi a mais difícil... Até eu acreditei dessa vez...
E era dessa forma que ela argumentava e eu dizia: “Claro! Você sempre lenta em tudo, quando os outros vinham voltando, você ainda nem havia entendido que tinha que ir...” Touché!


Ela dizia: “É... isso é verdade...”
E riamos muito.

De repente ela parava... Aquele olhar... Parecia a pessoa mais triste do mundo, mas o que eu sei sobre tristeza...

Ela dizia: “Não... por favor, não quero mais ter esperanças. Cansei de acreditar. E convenhamos, não era pra você, logo você, me dá esperança. Você está tão cansado quanto eu.” Era verdade... Estávamos cansados, muito cansados.

Mas aquela tristeza no olhar dela sinceramente me incomodava. Geralmente quando esse olhar surgia nas nossas conversas eu lembrava daquela poetisa que ela gostava, recitava algo pra ela... Eu pessoalmente achava tudo aquilo uma besteira, nunca fui capaz de entender um poema. Mas ela... Ah... Ela sorria... Eu nunca entendi a beleza daquele sorriso... Era como se as duas se entendessem, era um riso cúmplice, era quase uma experiência mística...
O que raios estou dizendo?! Era só uma garota extremamente passional ouvindo poesia e eis que questiono: há tiros mais passionais que os dos versos e rimas?

E ela me respondia com aquele sorriso lindo: “Você realmente nunca irá entender, mas obrigada.”

E dormia.

[♪♪ ouvindo Lady Day ♪♪]

Hilda Hilst [sempre]

Que canto há de cantar o que perdura?
A sombra, o sonho, o labirinto, o caos
A vertigem de ser, a asa, o grito.
Que mitos, meu amor, entre os lençóis:
O que tu pensas gozo é tão finito
E o que pensas amor é muito mais.
Como cobrir-te de pássaros e plumas
E ao mesmo tempo te dizer adeus
Porque imperfeito és carne e perecível
E o que eu desejo é luz e imaterial.
Que canto há de cantar o indefinível?
O toque sem tocar, o olhar sem ver
A alma, amor, entrelaçada dos indescritíveis.
Como te amar, sem nunca merecer?

(Da Noite - 1992)

sábado, 27 de dezembro de 2008

É Proibido

É proibido chorar sem aprender,
Levantar-se um dia sem saber o que fazer
Ter medo de suas lembranças.
É proibido não rir dos problemas
Não lutar pelo que se quer,
Abandonar tudo por medo,
Não transformar sonhos em realidade.
É proibido não demonstrar amor
Fazer com que alguém pague por tuas dúvidas e mau-humor.
É proibido deixar os amigos
Não tentar compreender o que viveram juntos
Chamá-los somente quando necessita deles.
É proibido não ser você mesmo diante das pessoas,
Fingir que elas não te importam,
Ser gentil só para que se lembrem de você,
Esquecer aqueles que gostam de você.
É proibido não fazer as coisas por si mesmo,
Não crer em Deus e fazer seu destino,
Ter medo da vida e de seus compromissos,
Não viver cada dia como se fosse um último suspiro.
É proibido sentir saudades de alguém sem se alegrar,
Esquecer seus olhos, seu sorriso, só porque seus caminhos se
desencontraram,
Esquecer seu passado e pagá-lo com seu presente.
É proibido não tentar compreender as pessoas,
Pensar que as vidas deles valem mais que a sua,
Não saber que cada um tem seu caminho e sua sorte.
É proibido não criar sua história,
Deixar de dar graças a Deus por sua vida,
Não ter um momento para quem necessita de você,
Não compreender que o que a vida te dá, também te tira.
É proibido não buscar a felicidade,
Não viver sua vida com uma atitude positiva,
Não pensar que podemos ser melhores,
Não sentir que sem você este mundo não seria igual.

[Pablo Neruda]

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

Piano de calda

"Eu nunca fui uma moça bem-comportada. Pudera, nunca tive vocação pra alegria tímida, pra paixão sem orgasmos múltiplos ou pro amor mal resolvido sem soluços. Eu quero da vida o que ela tem de cru e de belo. Não estou aqui pra que gostem de mim. Estou aqui pra aprender a gostar de cada detalhe que tenho. E pra seduzir somente o que me acrescenta. Adoro a poesia e gosto de descascá-la até a fratura exposta da palavra. A palavra é meu inferno e minha paz. Sou dramática, intensa, transitória e tenho uma alegria em mim que me deixa exausta. Eu sei sorrir com os olhos e gargalhar com o corpo todo. Sei chorar toda encolhida abraçando as pernas. Por isso, não me venha com meios-termos, com mais ou menos ou qualquer coisa. Venha a mim com corpo, alma, vísceras, tripas e falta de ar... Eu acredito é em suspiros, mãos massageando o peito ofegante de saudades intermináveis, em alegrias explosivas, em olhares faiscantes, em sorrisos com os olhos, em abraços que trazem pra vida da gente. Acredito em coisas sinceramente compartilhadas. Em gente que fala tocando no outro, de alguma forma, no toque mesmo, na voz, ou no conteúdo. Eu acredito em profundidades. E tenho medo de altura, mas não evito meus abismos. São eles que me dão a dimensão do que sou."
[Maria de Queiroz]

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Closer - Perto Demais, 2004

Dan - O que faz quando não ama mais?
Alice - "Eu não te amo mais, adeus!"
Dan - E se você ainda ama?!
Alice - Não vai.
Dan - Nunca abandonou ninguém que ainda amava?
Alice - Não!
~*~
Alice – Vou contar a verdade. E você pode me odiar.
Alice – Larry e eu transamos a noite toda. Eu adorei. Eu gozei.
Alice - ... Eu prefiro você. Agora saia.
Dan – Eu já sabia. Ele me contou.
Alice – Você sabia?
Dan – Eu queria ouvir de você.
Alice – Por quê?
Dan – Ele podia ter mentido. Você não.
Alice – Eu não teria te contado. Você nunca me perdoaria.
Dan – Perdoaria. Eu perdoei!
Alice – Por que ele contou?
Dan – Porque ele é um babaca!
Alice – Como ele pôde?
Dan – Para que isso acontecesse.
Alice – Mas por que me testar?
Dan – Por que sou um idiota!
Alice – Sim.
Alice - Eu teria te amado... pra sempre. Agora saia.
Dan – Não faz isso. Fala comigo.
Alice – Já falei. Fora!
Dan – Você entendeu mal. Eu não queria...
Alice – Queria sim.
Dan – Eu te amo!
Alice – Onde?
Dan – O quê?
Alice – Me mostra! Cadê esse amor?
Alice – Eu não o vejo. Eu não posso tocar nele. Eu não sinto. Eu te ouço. Escuto umas palavras... Mas não posso fazer nada com suas palavras vazias. Diga o que disser. É tarde.
Dan – Não faz isso!
Alice – Está feito.


~*~

Esses não são os diálogos que considero os mais fodas, mas em closer há tantos... Tantas doses macisas e diretas de verdades e desencontros. Esse filme é sem dúvidas, meu filme de cabeçeira. Andei esquecendo dele e acabei flutuando em alguns momentos. Mas se há no cinema hoje uma reprodução bem próxima da realidade dos relacionamentos modernos, essa reprodução é closer.

E tenho dito!